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Ferreiro, uma profissão milenar que está em extinção

Mário olha para trás e se entristece ao perceber que o que hoje não tem mais utilidade já foi valorizado e insubstituível.

Diversos ofícios estão deixando de existir com o passar do tempo, na maioria das vezes devido aos avanços tecnológicos. Um deles é a profissão de ferreiro que, com o passar dos anos, deixou de ser procurada. Ferreiro é quem cria objetos de ferro ou aço forjando o metal, ou seja, através da utilização de ferramentas como fole, forja, bigorna, martelos, dobra e corta, moldando-o na sua forma não líquida. Acredita-se que a profissão de ferreiro exista desde quando o homem aprendeu a manipular e moldar os metais (em torno de 2.000 a.C.), sem grandes distinções até os tempos atuais.

Em Fagundes Varela, uma ferraria centenária ainda existe, porém, os proprietários tem consciência de que não há mais serviço suficiente. Mário Bisatto, com seus 81 anos, vê a profissão que fez parte de sua vida desde a infância deixar de existir. Hoje, junto com seu sobrinho Luís Henrique Piorezan (Hique), ele mantém o espaço aberto para atender os poucos clientes que normalmente solicitam consertos. Devido à uma lesão em seu ombro, Mário dificilmente consegue trabalhar, mas todos os dias, às sete horas, lá está ele, em meio ao seu passado, em meio aos tantos equipamentos que desenvolveu e que foram muito importantes antigamente. Como ele mesmo diz: “no passado, esta ferraria era como se fosse a Scania hoje (relembrando dos tantos arados e carroças que produziu)”.

 

Uma vida e um ofício 

Mário começou a trabalhar na ferraria com seis anos, quando ajudava seu pai. E, depois disso, até pensou em seguir outra profissão; pensava em ser caminhoneiro, mas seu pai precisava de seu auxilio para tocar os negócios, que na época andavam muito bem. Eles possuíam a ferraria e a serraria; assim, eles produziam por completo, desde ferraduras, carroças e arados, até “caixas de morto”, como diz Mário. Com orgulho, ele recorda que seu pai fazia 120 pares de ferradura por dia. 
Os arados e carroças produzidos por Mário eram vendidos em diversos municípios: Ibiraiaras, São Jorge, Arvorezinha, Ilópolis, Anta Gorda, Dois Lajeados, Guaporé, Cotiporã e Vila Flores. Ele conta que tinha os vendedores que levavam, por exemplo, uma dúzia de arados e daí a um mês precisavam de mais uma, era bastante trabalho. Porém, com a popularização dos tratores agrícolas, tais equipamentos, aos poucos, foram deixados de lado. Por isso, Mário lutou para que seus filhos estudassem, ao invés de seguirem com a ferraria.
Ele diz que hoje o serviço bom é o serviço cego: “que é quando você paga por um serviço que não tem conhecimento, por isso, não tem como saber se o que pagou foi ou não foi feito. Ao invés aqui (ferraria), o que tu fazer eles veem. O serviço não cego hoje não é mais bom”, conta. 


Hoje ninguém mais exerce a profissão de ferreiro, basta analisar nos municípios da microrregião. Segundo Mário, cidades como Veranópolis e Fagundes Varela tinham cerca de nove ferrarias, e hoje quase nenhuma sobrevive. 
Ao questionar quais foram as dificuldades ao longo do tempo, ele diz que não foram muitas devido à prática, mas recorda: “só os arados incomodavam, o cabeçalho; às vezes, vendíamos em Ibirairas, eles colocavam duas juntas de boi e quebrava o cabeçote. Daí, eu tinha que ir até lá trocar o arado, dá 70km para ir e 70 para voltar; e um me deu uma forma de queijo de presente e mais nada. Mas dando essa assistência, eu garantia próximas vendas, pena que era muito distante”. Outras questões vistas por ele como percalços na profissão foram: vender fiado e a inflação. 

 

Três gerações 

Seu sobrinho, Luis Henrique Piorezan, hoje com 60 anos, também começou na ferraria desde jovem, com o avô e o tio. Ele perdeu a mãe e foi criado por eles. O sobrinho é quem ainda trabalha na ferraria, mas, infelizmente, ele precisa encontrar outros meios para garantir a subsistência. “Estou esperando para me aposentar para fecharmos as portas, porque não conseguimos mais dar a volta, não tem mais serviço, infelizmente é uma profissão que vai desaparecer. Eu faço biscate para conseguir pagar as contas e sobreviver, faço um pouco de tudo, elétrica, solda, o que aparecer eu tento fazer”, conta. 

Com tristeza nos olhos, Mário diz que é desanimador ver que o trabalho de uma vida inteira hoje não vale nada, e eles pretendem vender o lote. Porém, as ferramentas e equipamentos não serão vendidos porque, atualmente, não tem mais utilidade devido à modernização. Durante o dia ele fica na ferraria e caminha nas redondezas para passar o tempo. 

Mas ele se orgulha em ver que ajudou os quatro filhos, dois homens e duas mulheres, a se formarem. Eles saíram de casa muito jovens para estudar, e hoje, apesar de não residirem em Fagundes Varela, o ajudam muito: “não é nem de acreditar o quanto eles me ajudam”, afirma Mário. Além dos filhos, ele e sua esposa têm três netos, dois meninos e uma menina. 

Bisatto e o sobrinho Luis Henrique