Reportagens Especiais

Um polvo e muito amor

Gaúcha que tem suas origens em Veranópolis iniciou um belo projeto em Porto Alegre: a doação de polvos de crochê para bebês prematuros internados em UTI neonatais. Inclusive, ela conheceu a sede do Projeto Octo na Dinamarca. E além dessa causa, Simone abraça muitas outras.

A arte de confeccionar polvinhos de crochê com o fim de auxiliar os bebês nas incubadoras surgiu em Copenhague, na Dinamarca, em 2013. Simone De Bortoli, embaixadora do Projeto Octo Porto Alegre e Região Metropolitana, conta que o pai de uma criança prematura teve uma ideia para ajudá-la, pois nessa situação os bebês sofrem muito. Ele se deu conta que tentáculos poderiam lembrar o cordão umbilical e resolveu, então, testar com sua filha. Após receber a liberação do hospital, e dar o polvo de crochê à criança, os médicos perceberam que a menina começou a se desenvolver mais rápido, numa velocidade muito maior que os outros bebês. Sendo assim, testaram com as demais crianças e verificaram que realmente funcionou. 
Ao ficar em contato com o polvo, diversos são os benefícios: a respiração melhora, os batimentos cardíacos estabilizam e há ganha de peso mais rápido. Além disso, o polvo evita que puxem a sonda e tubos instalados, e a criança se acalma e dorme melhor. Com o tempo, essa iniciativa espalhou-se pelo mundo todo e, em 2017, chegou ao Brasil e já beneficiou milhares de crianças.

Como Simone chegou até o Projeto Octo?

Simone teve um filho que nasceu prematuro, Felipe; e ele faleceu com sete anos, em 2016. Certo dia, após a triste perda, Simone teve um sonho com o menino, onde ele pedia uma camiseta amarela. E, no dia seguinte, ela recebeu um pedido de ajuda de uma amiga para um bebê prematuro que precisava de roupas, pois não tinha nada. Simone ressalta: “Na época, até me espantei, achei que era impossível uma criança sair do hospital nessas situações, porém, com o tempo, percebi que isso é bem comum em nosso país”, relata. 
Então, a fim de auxiliar, separou roupas de seu filho, fez mais algumas de crochê, e buscando encontrar mais maneiras de ajudar iniciou pesquisas na internet, onde encontrou informações sobre os polvinhos de crochê. Como era algo que sabia fazer, se baseou na receita e iniciou, pois sabia que precisava mesmo ajudar; a criança era de uma família desestruturada, que vivia na pobreza extrema e enfrentava problemas sérios de alcoolismo. 
Comovida com a causa, ela começou a fazer diversas doações, e então, a convidaram para ser embaixadora do Projeto Octo Porto Alegre e Região Metropolitana, que foi fundado em 31 de outubro de 2017. Emocionada, Simone coloca: “cheguei nos polvinhos através do meu filho, acredito que foi um legado dele”.  
Ela possui um grupo de 28 voluntárias que, até hoje, já confeccionaram cerda de 600 polvinhos. Atuaram inicialmente no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, e hoje já são feitas doações também para o Hospital da Criança Conceição, Hospital Santo Antônio da Criança, e Hospital São Lucas da PUCRS, todos em Porto Alegre; no Hospital São Camilo de Esteio, Hospital Getúlio Vargas de Sapucaia do Sul, Hospital Universitário da Ulbra, em Canoas, Hospital Tramandaí, Hospital Universitário de Santa Maria e Hospital Santa Cruz, em Santa Cruz do Sul. Simone coloca que “onde tiver um bebê que precisa de ajuda, vamos ajudar!”. 
Técnicas e detalhes 
Porém, é preciso seguir diversas regras visando realmente contribuir com a saúde da criança. Os polvos são confeccionados seguindo padrões de materiais testados na Dinamarca. O fio deve ser de linha 100% algodão mercerizada e recheio de fibra silicone 100% pura, assim aguentam as altas temperaturas da esterilização sem se deformarem.
Os que são doados aos que estão internados, é preciso lavar e esterilizar colocando os polvinhos em papel grau cirúrgicos lacrados e deixando-os em autoclave por cerca de uma hora, sob temperatura de 120 graus. Para os hospitais que dão os polvinhos na alta, são entregues já lavados e embalados pelo Projeto e, na sequência, as próprias mães podem lavar na máquina ou à mão, e podem ser colocados em secadora. Cada bebê tem seu próprio polvinho, que leva para casa na hora da alta, auxiliando na transição. O recomendado é que tenham dois polvinhos ou medusas para que, quando um for lavado, o outro fique com ele e não fique sem, pois geralmente choram.
Simone lamenta que muitas pessoas têm confeccionado polvinhos com material impróprio, como lã, que além de não ser esterilizável, soltam fiapos que podem entrar no narizinho do bebê ou ainda fazer com tamanho grande em que os tentáculos ultrapassem os 22cm quando esticados, pois pode causar asfixia. 

Simone De Bortoli dedica tempo e amor para ajudar quem precisa

 

Viagem e descobertas 

Simone foi a primeira brasileira a visitar a sede do The Danish Octo Project, em Copenhague. Lá ela conheceu a equipe da associação e viu pessoalmente os polvinhos serem produzidos, de modo que foi essa associação que criou o método. 
Os coordenadores dinamarqueses ficaram honrados em receber a brasileira; eles a presentearam com polvinhos, chaveiros, fios e um livro que eles editaram. Nesse encontro, Simone descobriu que os polvinhos confeccionados no Brasil estão com medidas maiores que os de lá, que são os originais; então, ela já fez a adaptação da receita dinamarquesa com os fios usados no Brasil, que tem espessuras diferentes, por isso o equívoco. 
“O fio deles não estica tanto quanto o nosso, então, quando a receita foi traduzida, no site deles estavam 55 correntinhas para fazer o tentáculo, o que deixaria muito longo. Adaptei e coloquei com 40 correntinhas do nosso fio”, afirma Simone. 
Outra descoberta de Simone foi que na Dinamarca eles também fazem medusas, que tem dois tentáculos a menos que os polvos e estes são enrolados embaixo, diferente dos polvos que têm todo o tentáculo enrolado. Os benefícios são os mesmos, testaram e criaram em Copenhague. A partir daí, o grupo de crocheteiras do Projeto Octo, em Porto Alegre, começou a confeccionar medusas, mas com um toque especial. As carinhas delas são de animais diferentes, como tigres, ursos, cachorros, entre outros. 
 “O amor não pode 
ter limites”
Atualmente, o projeto doa polvos também para idosos. “A última pessoa que doei foi uma senhora que passou por diversos AVCs. Ela está com sonda, fralda, então ela se irritava e tentava arrancar os equipamentos. Mas, com o polvo, ela fica agarrada e se acalma, foi o mesmo processo do bebê. Como é um adulto, o polvo pode ser confeccionado com malha, sendo assim, ficou bem maior. Não é necessário esterilizar, apenas lavar. Simone destaca que “a ideia é amor, ele não pode ter limites”. 
A utilização de polvos 
não é proibida 
Simone coloca que não há nenhum caso em que os polvos tenham causado infecção ou algum mal aos bebês. A sua utilização é uma experiência empírica, sem comprovações científicas, desse modo não pode ser estabelecida uma norma. Porém, hospitais pelo mundo inteiro já experimentaram a técnica e diversos médicos comprovaram os resultados. 
Sendo assim, o Ministério da Saúde não proíbe a uso de polvos de crochê nas incubadores, porém, também não recomenda, pois, segundo o governo, não há comprovação científica sobre os benefícios do ‘bichinho’ como instrumento terapêutico.
O ministério informou que isso não significa que o polvo está proibido, ou que faça mal aos bebês. A nota indica que esse tipo de tratamento não é chancelado pelo ministério – ou seja, a adoção do método é de responsabilidade de cada médico ou gestor local.
Simone acrescenta que diversos hospitais aceitam, e quase todos que o grupo doa, inclusive, são públicos. Mas, para utilizar o polvinho, tem que ter o protocolo, e alguns hospitais não querem ter esse custo; e outros não têm a estrutura para a esterilização. Ela destaca que o primeiro local que adotou a utilização no Brasil foi em Brasília.
O Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, em Porto Alegre, foi o primeiro que adotou o uso dos polvinhos no Rio Grande do Sul. Lá, os presidiários, homens, de bom comportamento, fazem polvinhos e doam para a casa de saúde. “Isso é uma coisa maravilhosa, não tem isso em nenhum lugar do mundo, é uma coisa gaúcha. Eu acho fantástico, pois além de terem uma ocupação, aprenderem uma atividade, estão exercitando amor. Pois quando se está fazendo se pensa na criança que será beneficiada”, orgulhosa, afirma. 

Qual o sentimento de quem doa e ajuda?

Aos ser questionada sobre o que sente ao ver as pessoas se beneficiarem com esse projeto, Simone revela que sente uma felicidade de mãe. “Eu vejo meus filhos nas crianças, acho que é assim que surge o amor da gente por elas. Foi como se eu visse o Lipinho naquelas crianças, ele se beneficiando”, relata. 
Além disso, ela afirma que as famílias também ficam muito gratas porque, muitas vezes, não sabem como ajudar. Ao receber os polvos e ver que realmente auxiliam, muitos pais choram. “É uma emoção para mim ajudar uma criança que está lutando pela vida, num momento tão sensível; ela é tão frágil”, conclui. 

Projeto ajuda bebês prematuros a se sentirem protegidos

Ajuda que se estendeu 

O coração de Simone luta por diversas causas e ajuda, além dos bebês prematuros, crianças maiores, idosos e animais. O seu grupo começou a costurar roupas e fazer as doações de tecidos, roupas e brinquedos para fazer a diferença para famílias que tanto precisam. 
Ela também auxilia animais abandonados nas ruas; “saio com minha mochila e coloco ração, vermífugo, antibiótico spray e água. Eu vou cuidando deles, os alimentando, medicando, é a maneira como posso ajudar”. Simone diz que quando se ama não tem limites, por isso, ela criou outro grupo, que se chama “Tentáculos de Amor”, que pede ajuda para ração, adoção, doações para crianças maiores e também são compartilhadas denúncias de maus tratos.
O trabalho voluntário de Simone tornou-se conhecido e muitas são as pessoas que abraçam as causas, pois sabem que a intenção dos projetos é de auxiliar quem realmente precisa.  “Onde os meus tentáculos alcançarem eu vou ajudar. Acho que o mundo está melhorando, as coisas ruins estão ficando mais evidentes e o pessoal do bem, que está combatendo, é maior”, esperançosa, coloca Simone. 
Por fim, ela destaca que vivemos num país onde as pessoas precisam de ajuda e apenas um ser humano pode ajudar muitas pessoas. “Tem mais gente que precisa do que gente que tem. Agradeçam a Deus a bênção de terem água, saneamento, comida, roupa, e lembrem de quem não tem. Eu sempre penso assim: ‘a generosidade é destinar algo a alguém’, isso faz bem para a gente. Espero que isso se espalhe aqui, os tentáculos de amor...”, declara. 

Como participar?

Quem gostaria de ajudar pode entrar em contato com a página no Facebook: Projeto Octo Porto Alegre e Região Metropolitana e Tentáculos de amor. Como também através do Whats App (51) 99708.7007 ou pelo e-mail [email protected] Inclusive, Simone pode desenvolver oficinas que ensinem a confeccionar os polvos. 
Ela é da tradicional família Refosco, neta de Atílio Refosco e Colomba Padova Refosco, tendo inclusive vitrais na Igreja Matriz São Luiz Gonzaga doados por seus familiares.