O que dizem infectologistas sobre o novo tratamento contra covid-19 aprovado pela Anvisa

Infectologistas que estão na linha de frente do combate à pandemia no Rio Grande do Sul veem como positivos os

Infectologistas que estão na linha de frente do combate à pandemia no Rio Grande do Sul veem como positivos os resultados dos estudos com os medicamentos casirivimabe e imdevimabe (REGN-COV2) no tratamento da covid-19. A terapia com base nas duas drogas, produzidas pelas farmacêuticas Roche e Regeneron, foi autorizada para uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nesta terça-feira (20), e poderá ser utilizada no combate à evolução da doença para formas graves. 

O trio de especialistas consultado por GZH pondera, no entanto, que o alto custo desse tratamento, a curta janela de tempo para a administração dos medicamentos e a logística para aplicação intravenosa são entraves para a ampla utilização dessa alternativa no Brasil.

— O objetivo desse tratamento é diminuir a chance de progressão da covid-19 para suas formas mais graves, aquelas que fazem com que o paciente precise ficar hospitalizado e eventualmente ocupe leito de tratamento intensivo. Assim, da forma como está autorizado a ser usado aqui no Brasil, o medicamento pode ajudar no desafogo de hospitais e de centros de terapia intensiva (CTIs) — afirma Eduardo Sprinz, chefe de Infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. 

Conforme os critérios definidos pela Anvisa, estão aptos a receber o medicamento adultos e pacientes pediátricos, com 12 anos ou mais, que pesam pelo menos 40 quilos. Os indivíduos devem possuir diagnóstico confirmado para a covid-19, mas apresentar quadros leves ou moderados da doença — sem necessidade de suporte respiratório — e alto risco de evolução para formas graves. Esse risco é maior para pessoas idosas e que têm comorbidades.

Para o professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS) e infectologista do Hospital Moinhos de Vento Diego Falci, os estudos com anticorpos monoclonais, como é o caso da terapia aprovada nesta terça, apontam que o momento ideal para a aplicação da medicação é em até cinco dias após o início dos sintomas da doença, embora tanto Anvisa como FDA (a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, onde o uso emergencial já é permitido) costumem autorizar a utilização dentro de até 10 dias. Segundo o pesquisador, a pouca agilidade da testagem no Brasil seria um fator de prejuízo ao tempo hábil para que os profissionais da saúde pudessem optar por esse tratamento.   

— Nesse tipo de terapêutica, há benefício quando o medicamento é administrado no início da doença, idealmente em até cinco dias do começo dos sintomas, que é o momento em que a pessoa concentra uma maior quantidade de vírus e está precisando de reforço de anticorpos. Mas, pela experiência que estamos tendo, é difícil conseguir um diagnóstico ágil a ponto de termos essa janela de intervenção. É claro que, eventualmente, algumas pessoas podem ser beneficiadas, mas do ponto de vista do impacto na pandemia, os efeitos serão bastante limitados. Esta não é a terapêutica que esperamos, aquela que pudesse ter um amplo uso e mudar o jogo — afirma Falci.

Outro ponto levantado pelos especialistas tem a ver com a logística de aplicação do medicamento. Por se tratar de um produto que precisa ser administrado nos estágios iniciais da covid-19, momento em que os pacientes estão em uma situação mais contagiosa, as instituições de saúde precisam garantir um grande número de espaços adaptados, que proporcionem segurança contra a transmissão da doença. Além de precisarem se deslocar às instituições de saúde, o professor de Infectologia da Universidade Federal do RS (UFRGS) Luciano Goldani aponta que, para receberem o tratamento por via intravenosa, os pacientes têm de ficar no local por cerca de duas horas.

— Tratamentos à base de anticorpos monoclonais não se encaixam bem no nosso cenário de saúde pública. Atendemos uma grande quantidade de pacientes com covid, e este é um medicamento muito caro e que precisa ser infundido na veia, com todo o aparato que isso implica. É muito difícil fazer isso numa logística de saúde pública. Então, não podemos ficar achando que, por ter apresentado ótimos resultados, esse medicamento resolverá nossos problemas. Não vai. Precisaríamos de uma medicação mais barata e mais simples, por via oral, que o paciente pudesse tomar em casa — afirma o infectologista.

Os trio de infectologistas concorda que o custo desse tipo de terapia, geralmente alto, poderá ser um fator proibitivo à ampla utilização do medicamento no país.

— Não vejo como uma medicação promissora para tratamento em massa. É muito provável que não tenhamos condições financeiras na saúde pública para bancá-la no tratamento dos nossos casos leves e moderados. Apesar de os resultados serem excelentes, ela é uma medicação muito distante da nossa realidade — diz Goldani.