Pandemia provoca atraso na alfabetização de crianças

Um problema que afeta crianças em todo o país se repete nas escolas de Caxias do Sul. É o atraso na

Um problema que afeta crianças em todo o país se repete nas escolas de Caxias do Sul. É o atraso na alfabetização causado pela pandemia. Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), essa etapa deve ocorrer até o 2º ano do Ensino Fundamental. Embora uma avaliação diagnóstica realizada neste ano ainda não esteja com dados prontos, a Secretaria Municipal da Educação (Smed) de Caxias do Sul adianta que há um crescimento no número de crianças não alfabetizadas dentro do esperado.

Em nível nacional, já há quantificação de como essa situação afeta os estudantes. Levantamento da ONG Todos pela Educação mostra que, entre 2019 e 2021, houve um aumento de 66,3% no número de crianças de seis e sete anos que, segundo os responsáveis deles, não sabiam ler e escrever. O número passou de 1,4 milhão em 2019 para 2,4 milhões em 2021. Em Caxias, as crianças chegaram a iniciar o ano letivo de 2020 em sala de aula, mas o avanço da pandemia fez com que fosse adotado o modelo remoto. Esse foi o formato utilizado durante a maior parte de 2020 e 2021. A diretora pedagógica da Smed, Paula Martinazzo, diz que educação envolve os processos de sistematização e repetição, o que em um ano típico é planejado e acompanhado de perto pelo professor. Com a pandemia, no entanto, essa proximidade do

— Essa intervenção precisa. Esse olhar aguçado do professor que está observando a construção do conhecimento com as crianças na sala de aula, por vezes, não ocorreu, porque quando a atividade chegava na escola para o professor fazer a correção ou mesmo quando tu trabalhavas de uma maneira online, tu não conseguias intervir exatamente no momento em que a criança estava trazendo a dúvida. Se eu falo de uma atividade remota, por exemplo, o professor só ia entender o raciocínio do pensamento da criança quando fosse corrigir aquela atividade  — explica, ao pontuar que hoje existe um número maior de estudantes até o 5º ano do Ensino Fundamental que não conseguiram construir adequadamente a alfabetização.

Professores apontam desafios

A professora Leilane Fruet, que trabalha em uma escola do bairro Panazzolo, conta que no primeiro ano de pandemia, a experiência dela foi com uma turma de 2º ano em que houve uma participação constante dos pais na vida escolar dos filhos. Para ela, neste momento, o desafio foi manter a motivação e o interesse dos estudantes.

— O que a gente mais sentiu durante a pandemia foi esse afastamento, a falta do vínculo. Por mais que se tivesse as aulas online, não é a mesma coisa. Ainda mais nessa fase em que eles precisam muito da interação, de estar perto, mesmo não podendo ser tão perto quanto antes. Mas, ao menos, a questão de olhar, a questão de incentivo, de vínculo com a professora, que é muito importante.

A partir de 2021, houve um momento em que as turmas voltaram de forma escalonada: parte estudava presencialmente em uma semana, parte em outra. Isso, relata a professora, quebrava os processos de ensino-aprendizagem. Porém, ela destaca que o retorno total à presencialidade foi um momento ainda mais delicado:

— Foi muito difícil porque tinham alunos que não conseguiram assistir online, outros não tinham tirado atividades.

A professora Silvani Teresinha Bersch adiciona que essas condições de ensino forçadas pela pandemia estão refletidas em sala de aula de uma maneira ampla. Ela, que trabalha com Educação Infantil e 2º ano do Ensino Fundamental, percebe que etapas, antes superadas ainda nos primeiros anos de vida escolar, agora avançam para períodos posteriores:

— As dificuldades são inúmeras: desde habilidades que já deveriam estar consolidadas ou em processo até as situações de socialização. São coisas básicas. Por exemplo, uma turma de 2º ano tem questões em aberto que são típicas da faixa etária da Educação Infantil, mas que por conta da pandemia não puderam ser sanadas. Então, agora o professor precisa retomar para que essas crianças não tenham mais defasagem ainda.

Silvani destaca ainda que o papel da escola ganhou evidência com a pandemia:

— A pandemia mostrou para a sociedade a real importância de a criança estar dentro da escola e que o professor tem papel fundamental no processo de ensino/aprendizagem. Percebe-se que algumas famílias até se esforçaram em ajudar seus filhos durante esse tempo de aulas remotas, mas nada substitui a escola e o professor no processo de alfabetização.

O que a prefeitura tem feito 

A Secretaria Municipal da Educação tomou medidas para auxiliar no avanço do processo de alfabetização dos estudantes atrasados. Uma das ações é o Programa de Recuperação de Aprendizagens (PAR), que levou profissionais especialistas na área de neurodidática para atuar nas escolas. Alunos da rede municipal também têm acesso a duas plataformas de leitura e escolas receberam kits de robótica e computadores. A diretora pedagógica da Smed salienta que esses recursos ajudam a estruturar a mente dos alunos para o processo de alfabetização.

— Embora essas crianças tenham ficado dois anos fora da escola, elas não ficaram dois anos sem construir aprendizagem. A aprendizagem das crianças ocorre de muitas formas. A maior parte delas ocorre pela exploração do corpo. Então, essa gurizada tem muito o que mostrar que aprendeu durante a pandemia. O que a gente fala enquanto escola, é que talvez eles não tenham tido a possibilidade do conhecimento formal ou da sistematização do conhecimento. Então, a gente trabalha, sim, na perspectiva de que essas crianças têm todas as condições possíveis de recuperar as suas aprendizagens formais.

Como ajudar a criança atrasada na alfabetização:

  • Manter a criança na escola;
  • Incentivar a realização de tarefas dadas pelos professores para realizar em casa;
  • Acessar plataformas de leitura fornecidas pela prefeitura. Elas são interativas;
  • Ouvir os filhos sobre o que ele está vivendo, inclusive na escola;
  • Propor atividades lúdicas, como jogos, para desenvolver o raciocínio;
  • Ler em frente às crianças, como forma de dar exemplo;
  • Fazer as crianças lerem para adultos;
  • Reduzir o tempo de telas;
  • Levar os filhos junto ao mercado com listas de compras simples;
  • Aulas particulares com professores.

Fontes: Pioneiro