Da turbidez à pureza

O bem mais precioso do planeta nas mãos de um profissional que o admira.

O olhar ultrapassa os dados específicos e os valores de produtos utilizados para obtenção do resultado que está entre suas mãos; ali já não importa mais o cansaço, a distância daqueles que lhe são caros ou os problemas enfrentados para chegar até aquele determinado momento – são apenas ele e sua felicidade, a pureza de algo que se fez sua vida, o olhar para algo precioso: a água que ajudou a tornar própria para consumo.

Marcel, no alto de seus trinta e um anos de carreira, na simplicidade de suas falas, nos conta como encontrou seu caminho profissional. Aos 21 anos, casado e com dois filhos para criar, viu em um concurso a chance de escolher uma profissão e melhorar suas condições de vida. Sua história, pelo menos no início de sua vida como trabalhador, não foi exceção, mas sim a regra: como na vida de muitos brasileiros, dar prioridade ao trabalho e não à faculdade. Segundo ele, “na nossa origem, que não é de berço de ouro, tu é um trabalhador-estudante, não um estudante que trabalha. Tu estuda para melhorar tua condição”. E foi assim que começou seus estudos tentando, de alguma forma conciliar todas as obrigações do dia a dia. 

Com o tempo, encontrou na Corsan o que gostava de fazer, o que o fazia se sentir feliz: ser agente de tratamento de água e esgoto. Tentou deixar a empresa por um período, na esperança de encontrar uma vaga na área que estava cursando, Administração, mas o amor pelo que fazia falou mais alto: “Escolhi voltar para a Corsan mesmo ganhando muito menos, pois é isso que eu gosto de fazer”. 

Talvez o contato mais constante com a família seja a divisão do setor com seu primo, Luciano. Das 24 horas do dia, em 21, eles e outros três colegas estão cuidando da água que é distribuída para a comunidade de Veranópolis, divididos entre três turnos de trabalho, para que não sejam tão sobrecarregados. “Enquanto estiver entrando água aqui, tem que ter alguém monitorando”. Quando questionado sobre a dificuldade de conciliar os horários com a rotina da família, conta: “é a tua responsabilidade. Tu tem que decidir às vezes: eu vou ficar, porque não pode faltar água!”

Durante todos esses anos, presenciou alguns problemas com a água, como queima de motores, adutoras que estouraram e seca de caixas, inclusive um acidente com vazamento de gás de cloro, produto altamente tóxico e mortal. Mas, relata que a maior dificuldade da profissão é ser realocado para outros municípios, afinal, “cada água é uma água”! 

A voz se enche de orgulho ao contar: “já tive elogios de técnicos alemães que prestam serviços para uma empresa do município. Eles dizem que nunca viram uma água tão adequada para usar em certos tipos de laboratórios”. Para Marcel, essa frase simboliza não somente um troféu de reconhecimento pelo trabalho que realiza, como também o valor que dá à pureza do líquido que garante a saúde da população: “um saneamento é quase como o serviço de um médico; a prevenção contra muitas doenças vem do tratamento adequado da água.”

Os cabelos brancos que vieram com a idade não o impedem de projetar seu futuro ainda dentro de seu laboratório e por entre os tanques de água. Marcel nos disse que a água pode paralisar as vidas quando falta, mas, curiosamente, por estar presente em abundância, ela movimentou sua vida. “Estou aposentado, mas ainda não me desliguei. Vai ser difícil de me acostumar”!