O Dia da Mulher, comemorado em 8 de março, é uma das datas que reforça as bandeiras de igualdade e liberdade feminina. As entrevistas a seguir enaltecem e ressaltam o que de melhor há no ser mulher: a leveza no jeito de ver a vida.
O futuro é sinônimo de conquista
Exemplo e liberdade. Essas são as palavras que resumem o ser mulher de Iasmin Fantini Picetti, uma jovem que enxerga nas mulheres com quem convive uma oportunidade de aprender e crescer à sombra de seus exemplos. Uma jovem que vê a trajetória das mulheres e reconhece que muitos direitos e privilégios que pode aproveitar hoje são frutos da luta incessante de suas antepassadas. Iasmin é estudante de Arquitetura e Urbanismo e faz estágio no escritório Gaia Arquitetura e Design. É chefe escoteira e voluntária no Grupo Escoteiro São Luiz Gonzaga de Veranópolis e sempre se viu cercada por mulheres fortes, que lutam por seu espaço.
Em seu curso, viu muitas mulheres ganharem espaço na profissão, e percebe que o número de alunas foi crescendo nos últimos anos. “Mulheres entraram nas faculdades fazendo o mesmo trabalho que os homens e tiveram que superar os preconceitos existentes nesse tipo de curso majoritariamente masculino”, destaca.
Suas colegas de trabalho Gabriela e Ana Paula são seus exemplos de força e empoderamento dos desafios propostos às mulheres no mercado de trabalho. “Eu vejo a maneira como elas se colocam. Elas são mulheres fortes, exemplos, não tem medo de bater de frente e dar a opinião delas, e isso tem sido um grande aprendizado pra mim”. Iasmin sente que o mercado de trabalho é uma grande provação de que a mulher é capaz.
Na família, tem sua mãe Neide como referência. “Eu já tenho um exemplo dentro de casa de alguém que tem espaço na família, mas também tem o espaço no trabalho. Eu vejo que com a minha vó isso é diferente, tudo era muito caseiro, ficava mais em casa, se dedicava à família. Antigamente a mulher era um pouco de tudo, professora, enfermeira, esposa, enfim. Minha mãe trabalha muito, está sempre fazendo algo, se dedicando, e como ela é professora, todas as crianças da creche são um pouco filhos de coração”, reconhece.

Outra diferença é na questão dos filhos. Iasmin conta que a bisavó teve muitos filhos, e isso foi diminuindo com as gerações. Ela é filha única e nasceu quando sua mãe era muito nova. Hoje reflete sobre formar uma família e vê que tem a liberdade para planejar. “Hoje tem mulheres com 25 anos que já tem família formada e ok, se é o que elas queriam, tá tudo bem. Não é meu sonho ainda, mas eu tenho essa liberdade de planejar, vai ter minha hora. A gente está num momento em que cada um tem uma ideia, uma percepção e o importante é a gente ser feliz da forma como achar melhor”. A jovem dedica seus esforços à vida profissional e planeja formar uma família mais para frente, quando tiver estabilidade. Reconhece a importância de poder escolher o tempo que irá casar e ter filhos, coisas que não eram assim antigamente.
“Antigamente a mulher não tinha esse espaço, mas dá pra perceber que cada vez mais a gente está abrindo esse caminho. Acho que é uma luta muito antiga, a mulher já nasce batalhando. Sempre precisou fazer em dobro tudo o que um homem faz pra realmente provar que consegue. Hoje a gente consegue colher um pouco dos frutos, mas é uma caminhada bem calma e devagar. Quem sabe nossos filhos e netos possam viver em uma sociedade mais igualitária e segura, porque ser mulher é até perigoso”, comenta Iasmin, que se sensibiliza ao falar dos desafios.
Entre eles, está a luta para quebrar a ideia de que a mulher é sensível, feminina ou não pode agir de tal forma. “Nos escoteiros, quando faço um rapel, uma trilha, é comum me questionarem ‘nossa mas tu é mulher, vai fazer rapel?’, e é uma coisa tão simples que a gente precisa lutar pra conquistar”. O medo constante de andar na rua sozinha, de se expor também faz parte do dia a dia feminino e talvez esse seja um dos pontos mais críticos para as mulheres dessa geração. Em meio a tantas turbulências, Iasmin destaca que o sentimento de ser mulher é uma conquista diária: a cada passo, cada atividade, pode-se crescer e se fortalecer.
Iasmin cita o trecho de uma música e fala que “toda mulher é forte duas vezes porque já nasce de outra mulher”. Para ela, ser mulher é vir ao mundo lutando, batalhando e se provando. É mostrar pro mundo do que a gente é capaz, é emoção, é família e é também determinação. Ser mulher é força.
Dividindo-se entre a família e o trabalho
O ser mulher de Marly Piccolo, empresária há 22 anos, é um intenso desafio.

Marly percebe, em seu trabalho, que, com o passar do tempo, a mulher foi conquistando espaço. Quando ela era mais nova as vivências femininas eram diferentes das que se tem hoje.
“Ser mulher é um desafio, porque a maioria é mãe, então, trabalhar tanto quanto um homem, cuidar da casa e da família é ainda mais complicado. No meu tempo, a minha mãe não trabalhava, ela apenas cuidava da casa e era assim que funcionava, a mãe era do lar e o pai que trabalhava”, relembra. Ela destaca que o espaço feminino conquistado no mercado de trabalho é muito significativo e essa evolução é essencial para a mulher ter sua atividade e sua renda própria.
A lojista reconhece que o mercado de trabalho tem crescido para as mulheres, como nas profissões de frentista e motorista, profissões que antes eram somente masculinas. Marly acredita que as mulheres tem conquistado cada vez mais espaço e cita como exemplo disso o que tem acontecido na política, onde as mulheres têm aumentado sua participação de forma significativa.
A figura feminina da mãe, segundo ela, é uma das mais importantes e que, como empresária, às vezes sente que fica um vazio no seu lugar. “A mãe está ausente, não está mais lá o tempo todo. Às vezes minha filha me cobra essa presença. Mas tudo tem o seu preço. Com a conquista desse espaço na sociedade, ela também não pode ser mágica e fazer todas as tarefas”, relata. Marly acredita que os jovens de hoje em dia também são mais compreensíveis sobre essa ausência, porque desde cedo eles veem a mãe sair para trabalhar.
Marly percebe também que o planejamento familiar, em sua época, ganhou força, o que alterou as relações familiares, diminui um pouco o número de filhos por família, leva ela aos estudos e encoraja a trabalhar. “Creio que tudo é gratificante, é uma forma bacana de se viver dentro da sua época. Em todas as etapas nós temos que ir nos moldando aos tempos, e isso ocorreu com as mulheres”, acrescenta.
O espaço da mulher foi conquistado com base em desafios. De acordo com a empresária, deixar a família para estudar e trabalhar é o primeiro deles. Encarar a vida adulta, a formação da família e o mundo dos negócios são conquistas e lutas que exigem experiência. Experiência para atuar e experiências de vida. E são elas que concretizam a força feminina.
Ela se emociona ao falar dos desafios e enfrentamentos e destaca que o sentimento é de orgulho. “Ser mulher é um desafio diário, porque a gente não é só mulher, mas sim, mãe, trabalhadora, do lar e de si. É uma dádiva poder ser mulher e desempenhar todos esses papéis”, conta, sensibilizada. “A mulher é uma guerreira. Todos os dias temos desafios para enfrentar, e um dos sentimentos que a mulher precisa ter diariamente é o ânimo. Nunca desanimar, porque a gente sempre encontra dificuldades, e é bastante desafiador e trabalhoso, mas a gente precisa encontrar forças pra segurar tudo isso. A mulher é um pilar”, finaliza.
As experiências de quem encara a vida com bom humor
Força, essa é a palavra de Dalize Turra Bissani, uma senhora de 90 anos que encara a vida com coragem. Se enganam os que pensam que a idade deixa o indivíduo frágil e vulnerável, porque a vida de dona Dalize é movida a energia e leveza.

Nascida em agosto de 1930, ela levou uma vida tranquila, mas repleta de desafios. “Hoje é tudo mais fácil. A mulher trabalha fora, tem mais recurso. Desde cedo, eu tive que costurar, trabalhar em casa, fazer tudo e era difícil”, rememora.
Quando jovem, seu sonho era ser professora, mas para isso, precisava sair de casa para estudar. O sonho não se concretizou, porque seu pai só permitia que ela saísse de casa se fosse para ser freira. Depois do sonho na educação, a mãe comprou uma máquina de costura para que ela começasse a trabalhar, e não houve jeito, aprendeu a fazer. “Com 70 e poucos anos retomei meus estudos, terminei o EJA e quando eu ia na escola eu era a mulher mais feliz do mundo nessa época. Quando terminei, me senti realizada”, recorda, emocionada.
No passado, a mulher, como figura materna, presente no dia a dia do lar, sempre foi um pilar para a união da família. Ela conta que as mudanças fizeram com que a família se alterasse. “A gente sempre via a mulher reunida com a família na mesa, durante as refeições, de meio dia, de noite, e hoje é difícil”.
Dona Dalize relembra que não era fácil ser mulher. Os desafios relacionados a ela também ocorreram dentro da família, com o marido e com a visão de que o lugar da mulher é na cozinha. Quem mandava era ele.
Aos 42, ela perdeu o marido e assumiu o papel de pai e mãe dentro de casa, também se tornando responsável pelos problemas familiares, tendo que lidar com doenças e dinheiro. Com 3 filhos, precisou encarar essa realidade. “Antigamente era mais fácil para criar os filhos, os meus foram criados como eu pude. Eu tive três, um homem e duas mulheres, e hoje tudo é mais difícil, a educação é mais cara, e eles precisam de muito suporte”, diz. Ainda de acordo com ela, uma mãe pode ser mais pelos filhos, mas a criação é sempre feita com muito amor.
Pouco após a morte do esposo, a filha Bete foi morar em Porto Alegre e a filha Margarete ficou muito abalada. Todos os desafios que enfrentou a tornaram forte e vitoriosa e trazem esse sentimento de orgulho. “Nunca fiquei doente, sempre enfrentei com coragem e bom humor. Sempre fui muito contente, não me queixava”, afirma. E esses valores de ânimo, leveza e força, foram repassados para as filhas, que reconhecem a diferença que essa forma de ver a vida faz. Para dona Dalize o sentimento é de orgulho, de poder olhar para uma caminhada de superação enquanto mãe, enquanto pilar da família, e dizer que a enfrentou com muita bravura e um sorriso no rosto.
Essa força tem uma razão: a fé. “Eu sempre acompanho as missas na televisão, rezo o terço, peço forças, e isso me dá motivação”, conta. Durante toda a entrevista, o terço se fez presente ao lado do sofá, demonstrando que tem um alicerce religioso para sua vida.
No dia a dia, Dalize ocupa a mente com atividades como costura, voluntariado e exercícios físicos. Até o começo da pandemia, ela ia para a academia toda semana, ato que se repetiu pelos últimos 15 anos. Também participava ajudando como voluntária na APAE, fazendo costuras. Além de gostar muito de cozinhar, quando se realiza ao fazer massas para os netos e bisneto. Assim foi levando seus dias, com muita felicidade.
Para Dalize, ser mulher é sinônimo de força e orgulho. Ao encerrar, ela destaca que em sua época, não foi fácil encarar tantas adversidades impostas, mas que era necessário. “Tinha que enfrentar, carregar minha cruz. Eu carreguei com força e coragem. Eu nunca penso em coisas ruins, sempre positivas. A gente deve sempre pensar positivo”, finaliza.