Menos de 5% das ruas da região homenageiam mulheres

De 186 ruas veranenses, oito homenageiam mulheres e cerca de 155 fazem referência a homens.

A partir de uma análise em mapas de Veranópolis, pode-se perceber que encontrar ruas com nomes femininos é tarefa difícil. Mulheres foram homenageadas na nomenclatura de 4,3% das ruas, frente a 82,2% com nomes de homens – nomenclaturas referentes a estados, cidades, datas, santos e outras que não foram enquadradas em nenhum dos dois gêneros, mas foram contabilizadas. Os dados foram levantados pela reportagem d’O Estafeta com base nos mapas mais recentes do município, porém, neles não estão presentes algumas ruas do interior e de loteamentos novos.

Das 186 ruas catalogadas, a maioria homenageia personalidades, porém, 155 se referem a homens e apenas oito a mulheres. Muitos nomes masculinos referem-se a marechais, coronéis, Presidentes da República e outras autoridades importantes nacionalmente. Muitos veranenses também têm seus nomes estampados: das oito mulheres, apenas uma, Princesa Isabel, não tem relação com Veranópolis, mas sim, com a história do Brasil. 

Vamos conhecer a história de algumas das mulheres que denominaram ruas de Veranópolis: 

Rua Clara Schimitz: acredita-se que seja a mais conhecida que homenageia uma mulher veranense. Localizada no bairro Renovação, a rua, que é movimentada e extensa, foi denominada em 2004.  Ana Clara Froener Schimitz atuou como parteira por mais de 40 anos, realizando mais de três mil partos em Veranópolis, registrados por ela em um caderno que hoje se encontram no acervo da Casa da Cultura Frei Rovílio Costa. A história de Clara também foi contada pelo Jornal O Estafeta, na edição do dia 08 de maio deste ano. 

No mesmo ano da denominação da rua citada acima, outras duas receberam nomes de mulheres: a Rua Princesa Isabel, localizada no centro, e a Rua Maurícia Rescke, também no bairro Renovação. A veranense Maurícia Rescke foi professora na primeira Escola Estadual de 1º Grau Incompleto Ernesto Bortoli e na Escola Estadual Felipe dos Santos, onde foi Diretora por várias vezes. 

Em 2005, foi denominada a Rua Victória Breitenbach, a qual não possui histórico. Dois anos depois, Paulina Lacerda Paludo foi homenageada na denominação de rua em Sapopema, localidade onde nasceu. Ela foi professora por 33 anos e sempre lecionou para mais de 50 alunos, em uma mesma sala de aula. 

De 2012 a 2014, mais três ruas receberam denominação feminina: a Rua Alexandrina Gradaschi Pessin, em Vila Azul. Ela, imigrante italiana, teve 10 filhos e aos 100 anos de idade contava com 30 netos, 66 bisnetos e seis tataranetos. Alexandrina sempre acompanhou o esposo José Pessin no trabalho agrícola, mas ganhou notoriedade pelo ofício de parteira. Inúmeras foram as crianças da comunidade que vieram ao mundo pelas suas mãos.

No Loteamento Colina do Retiro, localizado no bairro Universal, há duas ruas que homenageiam mulheres veranenses, denominadas em 2013 e 2014, respectivamente: a Rua Irmã Filomena Fin e a Rua Sergina Toson Faccin. A primeira seguiu a vida religiosa, mas também foi professora em diversos municípios, incluindo Veranópolis, e exerceu outras atividades que realizou com muito amor. Já Sergina Toson Faccin nasceu em Lageadinho e era conhecida na cidade, sendo que prestou serviço por muitos anos na Rodoviária. Segundo o histórico, ela se intitulava “dona de um gênio nada fácil, ativa, dominadora, sempre soube o que queria, muito independente”. 

Olhando a microrregião

Assim como Veranópolis, os municípios da microrregião também possuem poucas ruas com nomes de mulheres.
 

Em Vila Flores, das 71 ruas, três homenageiam mulheres e 29 fazem referência a homens. Além disso, 27 ruas possuem nomes de árvores, frutas e flores e 12 são de categorias diversas. As mulheres homenageadas são: Vitória Amália Roncato Miotto, Brigida Zanin Roncatto e Professora Rumilda Sassi. Isso representa 4,2% de homenagens a mulheres.
 

Em Cotiporã há aproximadamente 50 ruas no Centro, e cinco delas, ou seja, 10%, possuem nomes de mulheres. São elas: Andrea Argenta; Dozolina Tonial Dall’Ago, Enrica Pasianot Domingues, Professora Lucia Sylvia Paganin e Professora Luiza de Marco Sfredo. 
 

Já Fagundes Varela apresenta o pior indice de mulheres  homenageadas: das 37 ruas contabilizadas, somente uma possui nome feminino: Rua Irmã Pastorinha. Isso representa apenas 2,7%. São 22 vias que homenageiam personalidades masculinas que retratam a sua histórias. As demais prestam homenagem a Santos, Padres e pessoas que fizeram parte da história do país. A rua Irmã Pastorinha homenageia religiosas que atuaram no município.

Analisando os fatos

A denominação de ruas, normalmente, é tarefa do Legislativo; os projetos de lei são votados na Câmara de Vereadores. Muitas vezes, trata-se de sugestões de moradores, que as encaminham primeiramente para o Executivo, que aprova a votação na Câmara. 
 

A Fiscal de Trânsito de Veranópolis, Rafaela Soares Vargas, acredita que o motivo de haver poucos nomes femininos é a idade do município. “O nosso município é muito antigo e a maior parte das ruas principais do centro e dos bairros são mais antigas e foram denominadas com nomes de marechais, nomes de personalidades históricas brasileiras”, afirma.
Porém, a questão patriarcal também é observada como motivo de tal diferença. “É uma questão cultural, histórica e pela antiguidade do município. Eu não tenho dúvidas de que se o nosso município começasse hoje do zero, provavelmente tivesse mais nomes de mulheres”, destaca Rafaela. 
Juntamente com ela, o Fiscal de Obras, Gilmar Valente, é profissional que conhece praticamente todas as ruas do município, pois trabalha com a numeração das residências. Ao pensar sobre a falta de representatividade feminina na nomenclatura das ruas, ele salienta: “houve a falta de visão em homenagear as mulheres, não só por parte dos políticos, mas também da população, pois a maioria das denominações parte de sugestões dos moradores”. Além disso, destaca que antigamente o homem era mais visado como o “chefe de família”, uma visão patriarcal da época. “Eram os homens que se engajavam com a política e demais atividades onde podiam tornar-se conhecidos. Hoje, as mulheres estão se igualando e estão na frente de muitos homens”, opina. 
Gilmar explica que, normalmente, as pessoas que moram no bairro ou na região vêm até à prefeitura encaminhar um pedido de denominação ou até mesmo solicitar a um vereador. Então, o projeto de lei é votado na Câmara, sempre com um nome já predeterminado. 

Você sabia?

Ao fazer a pesquisa sobre as ruas, surgiu uma informação bastante curiosa. Todas as creches municipais de Veranópolis têm nomes de mulheres: Anita Dall’Agnol Amantino; Irmã Laura; Irmã Cramelitta e Hilda Hoffman Peruffo.