Uma chance para recomeçar: “Depois do que passei, posso dizer que eu renasci”

Jaqueline foi a paciente mais jovem ao passar por uma intubação no município, mesmo com algumas sequelas, ela não vê a hora de retomar a sua vida

Natural de São Lourenço do Sul, Jaqueline da Fonsêca Farias de 38 anos é formada em Filosofia e trabalha em uma editora de livros, veio à Veranópolis a trabalho, junto ao marido Abel e suas três filhas. Ela só não imaginava que na cidade que escolheu para recomeçar, também enfrentaria algo que mudou a sua vida para sempre. 

No dia em que conversou com nossa equipe, Jaqueline havia completado oito dias desde que recebeu alta do hospital, após quase um mês batalhando por sua vida contra a Covid-19. Ainda com dificuldades para falar – consequência da doença – ela conta como foram estes dias de luta.

“No início tive febre, dores no corpo e me mantive assim até o 12º dia, quando comecei a apresentar falta de ar. Era um sábado, estava no sofá, e minha filha mais nova estava vendo TV e queria dançar, e eu lembro de não ter forças para brincar com ela. Neste mesmo dia fui internada. Foi realizada uma tomografia e descobri que estava com 40% dos meus pulmões comprometidos”, conta.

Abel conta que os dias em sua esposa ficou internada foram muito difíceis. Ele também era o responsável por informar aos parentes sobre o estado de saúde dela, o que tornava sua tarefa ainda mais árdua. 

“Tudo começa quando tu tem que tirar a pessoa de dentro de casa numa ambulância. Não poder entrar no hospital, ter o direito de apenas fazer a ficha dela e apenas esperar que alguém venha te informar como ela estava. Os sentimentos viram um turbilhão. Ela teve muita crise de ansiedade. Imagina só para uma pessoa que já não está conseguindo respirar 100%, com a crise só piora tudo”, desabafa. 

Poucos dias após sua internação e mesmo fazendo uso do capacete de oxigênio, o estado de saúde de Jaqueline piorou, obrigando-a a dar entrada no Centro de Terapia Intensiva. A partir deste momento, ela diz não lembrar-se dos fatos ocorridos.

Ela foi a paciente mais jovem no município a passar pelo processo de intubação. Logo após, foi transferida para uma UTI em Garibaldi, devido à gravidade do seu caso. Abel agradece à equipe médica que estava dando assistência à Jaqueline, pois eles permitiram que ele pudesse acompanhá-la, dentro do que era possível. 
“Eu pude ter uma noção do que se passa ali dentro. De tanta gente com esperança de que seu familiar pode melhorar, e a situação só piora. Se fosse só a minha esposa, a gente poderia dizer que é um caso isolado, mas não é. A realidade é dolorosa. Não tem o que você fazer. Cada vez que eu voltava para casa, minhas filhas perguntavam pela mãe, e eu tinha que dizer para elas não chorarem, que eu ia trazer a mãe delas de volta”, diz emocionado.  

Foram duas paradas cardiorrespiratórias, rins e fígado com sério comprometimento, e felizmente, Jaqueline pode hoje contar sua história de superação. “Meu marido sempre esteve junto, mesmo estando intubada, ele nunca deixou de falar comigo. E no meu inconsciente, eu acho, que eu ouvia ele falar. A família é muito importante neste momento”, complementa Jaqueline.

“Quando eu acordei, eu não fazia ideia de onde estava, ou quem eu era. Fui lembrar de tudo aos poucos. Fiquei intubada por sete dias. Após tudo isso passei pela fisioterapia para que eu não ficasse com nenhuma sequela da doença e para voltar a ter uma vida normal, porque é como eles me disseram, eu nasci de novo. Voltar para casa, rever minhas filhas, foi a coisa mais importante para mim, não tem explicação.”, revela.

A recuperação foi um momento de muita alegria para toda a família. Gradativamente ela começa o seu processo de retorno as suas atividades. O momento agora é de enfrentar as consequências que o corpo ainda sofre.

“Eu me sinto feliz, porque graças a Deus eu consegui vencer, mas é um processo lento, eu ainda sinto falta de ar e cansaço. Ainda permaneço com 40% dos meus pulmões danificados, terei que tomar remédios, fazer fisioterapia. Tudo o que eu passei foi um processo de aprendizagem. A gente corre tanto e esquece de ver que a vida é tão curta. Num instante eu já não poderia estar aqui”, reflete.

Para o futuro Jaqueline garante que irá cuidar mais de si mesma e aproveitar ainda mais os momentos que a vida proporciona. “Vou tentar melhorar mais, consertar os meus erros. Cuidar de mim, da minha saúde. Também estou com muita expectativa de voltar ao trabalho, e todos já falaram que estão com muita vontade de me ver de volta”, conclui.

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