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Na era tecnológica, comércios tradicionais de Veranópolis mantêm velhos hábitos

Onde a CONFIANÇA supera qualquer tecnologia

Você já comprou fiado, “pendurou a conta”? Mesmo que pareça uma prática muito antiga, e vista com maus olhos por alguns comerciantes, ela ainda é utilizada em alguns estabelecimentos, sempre tendo como base uma relação de confiança. 
Em uma era tão digital e tecnológica, ainda é possível entrar em estabelecimentos que nos fazem dar um giro no tempo. Em Veranópolis, dois dos mais antigos armazén continuam com o velho hábito de “pendurar” a conta, mas apenas para os clientes mais fiéis. Esses locais reúnem diversas atividades em um só: bar, armazém e até drogaria. 
Pequenos detalhes como um baleiro, um balcão antigo e uma variedade impressionante de produtos caracterizam o Bar e Armazém Dall’Agnol. Há quase 40 anos eles utilizam um caderninho para marcar as vendas, que são acertadas posteriormente pelos clientes.  
Seu Danilo Dall’Agnol, um veranense dos mais tradicionais, carinhosamente chamado por muitos como “Poco Guasto” e “Pirata”, juntamente com a esposa, Dona Fidelina, administra o armazém contando com o grande auxílio da filha, Anelize Dall’Agnol Furlanetto (Ane), que desde os 12 anos ajuda os pais.  Os três garantem que vale a pena ter essa relação com os bons clientes, principalmente com aqueles que frequentam o local há mais de três décadas. Eles relatam que muitas famílias continuaram comprando lá seguindo as gerações, tornou-se um hábito. Entretanto, com o tempo, as fichas foram classificadas e os cadernos renovados; antigamente, o número de pessoas que marcavam no caderno era muito maior. 
Devido ao crescimento populacional da cidade, Seu Danilo destaca que, hoje em dia, evitam abrir fichas para novos clientes: “tem que ser muito conhecido para anotar, porque não sabemos em quem podemos confiar”, destaca. 
Diversos clientes que foram os “fundadores do caderno” continuam comprando lá. Muitos nomes, muitas histórias, clientes que desde jovens compravam lá, e continuam. A vizinhança também prefere o armazém. Anelize conta: “quando falta algo no dia a dia, é mais prático vir aqui do que enfrentar filas no mercado. Para as emergências, é um lugar que tem de tudo”. 
Exemplo de cliente é o vizinho de porta, o empresário, Gilberto Gazzana (Beto), que possui seu negócio em frente ao Bar e Armazém. Ele foi professor de Ane e possui uma relação muito próxima com toda a família; há 25 anos tem o hábito de “pendurar” a conta no armazém. “Lá não falta nada, eu pego tudo o que eu preciso, nem olho o preço”, relata Beto. E o “tudo” quer dizer desde alimentos até roupas, como meias, cuecas, blusas, remédios, sprays para cabelo. Essa variedade, garante que Beto e os demais clientes chamem o estabelecimento de Shopping do Dall’Agnol.

 

Shopping Dall’Agnol

Muitos produtos que você jamais imaginaria encontrar em um mercado são vendidos lá. E, além disso, o armazém fica aberto de segunda a sábado e nos domingos de manhã. Segundo Beto, não falha, estão sempre abertos.
Muitos são os exemplos da variedade de produtos que possuem: “vendemos muitas coisas que os mercados grandes não vendem, como por exemplo, uma agulha de costurar sacos, que ainda existe. Os mercados, muitas vezes, nem conhecem certos produtos, e as pessoas que precisam já sabem onde vão encontrar certas coisas, vem aqui direto porque sabem que tem”, conta Danilo. 
Seu Dall’Agnol relata também que, há pouco tempo, um homem procurava um certo tipo de parafuso. Então, foi em diversas lojas que vendem esse tipo de produto,  e um dos vendedores disse: “tu já foi no Dall’Agnol?”. Dito e feito, o cliente foi até o armazém e encontrou o parafuso que tanto procurava. “Uma vez compramos uma caixinha desse produto e está ainda lá!”, afirma, Danilo. Porém, segundo ele, hoje em dia está mais difícil comprar certos produtos considerados “antigos”, pois são poucos os vendedores que ainda trabalham com isso. 
O cliente Beto conta que, tempos atrás, ele e seu funcionário e amigo Cláudio estavam procurando uma bolsa de água quente. Procuraram em diversos locais, e onde que encontraram? Essa pergunta nem é preciso responder. 
Dentre os produtos que vendem no armazém estão desde panelas, materiais de construção, chinelos, até alimentos de todos os tipos.

 

Tradição

Uma cena interessante é o método como Fidelina e Danilo calculam: eles não utilizam calculadora, fazem as contas de cabeça, em rascunhos. Eles relatam que é mais prático pensar: “Até que eu vou olhar a calculadora e os números, é melhor fazer a conta”, relata Fidelina que, com 80 anos, ajuda na administração. Com o tempo, algumas modernizações na administração foram providenciadas pela filha, como por exemplo, notas e boletos. 
A venda com cartão é algo que Anelise optou em deixar de lado, pois os pais não têm muita segurança com aparelhos eletrônicos. E como ela não está no armazém em período integral, é melhor deixá-los à vontade. 
Danilo, com 79 anos e com um largo sorriso no rosto, recebe muitos clientes em seu bar e conhece um a um pelo nome e pelas características. E afirma gostar deste trabalho, principalmente pelo convívio e contato com as pessoas. 
Por fim, a filha Ane caracteriza o armazém: “é um local que presa muito os valores que vem de antigamente, que seguiu a tradição! É um orgulho poder estar ao lado de meus pais, que continuam realizando a atividade que tanto amam. O armazém é vida para eles!”. 

Evoluindo, mas mantendo valores 

Outro estabelecimento visitado pela reportagem foi o “Comercial Pértile”, que começou na época em que chamavam esse tipo de estabelecimento de “Secos e Molhados”. Assim como o anterior, além de bar, também possui mercearia e vende diversos tipos de produtos. 
Com 40 anos de comércio, Ivone Pértile, proprietária juntamente com o marido Valdecir, conta que o estabelecimento ainda possui o caderninho. E a clientela é vasta; ela estima que sejam cerca de 50 clientes que ainda marcam. 
Dividido em ordem alfabética, o caderno é composto por variados tipos de clientes, uns, inclusive, que anotaram e desapareceram, nunca mais foram pagar as dívidas. Por esse motivo, ela não abre mais exceções. Como conhece muitas pessoas, ela garante que identifica os “conhecidos e confiáveis”. 
Há seis anos, eles mudaram o endereço e modernizaram, tanto que há dois meses começaram a aceitar cartões de crédito e débito, mas sem deixar de lado a tradição e os valores que existem desde a fundação de um dos armazéns e bares mais antigos da cidade.