Não existe idade para sentir prazer

Quando se fala de sexualidade na terceira idade, muita gente olha com estranheza, e para outras pessoas o assunto é

Quando se fala de sexualidade na terceira idade, muita gente olha com estranheza, e para outras pessoas o assunto é visto como um tabu. O fato é que o envelhecimento tem por característica algumas alterações na sexualidade. Isso inclui, de forma geral, uma diminuição do interesse e da qualidade no desempenho das relações sexuais. 

Mas entenda, diminuição não implica em cessar a atividade sexual por completo. Este é o caso de seu Osvaldir Ribeiro da Silva, conhecido como Pelé do Jipe, de 73 anos, que fala abertamente sobre o assunto e que não faz questão nenhuma de esconder que gosta muito “daquilo”. 

Ele tem oito filhos e está no segundo casamento, que já dura quase 30 anos. Para ele, o momento do sexo é o mais prazeroso da sua vida. “Acho que não sou só eu, acredito que todo mundo goste. Para mim é a melhor coisa do mundo, ter contato com uma mulher é bem animador”, fala. 

Ele comenta que, a parceira também colabora muito para que ele permaneça ativo. Atualmente, seu Osvaldir diz que está mais devagar. Isso se deve a um problema de saúde que teve de enfrentar há alguns anos atrás. Devido ao “preconceito” que ainda existe em torno da consulta a um urologista, ele acabou adiando a realização do exame de próstata.
“Eu sou uma pessoa mais antiga, sou ‘pelo duro’, como dizem, e quando fiquei sabendo como era realizado o exame, eu dizia que no dia que eu sentisse alguma coisa, eu iria. Foi quando meu genro disse que se eu não fosse, ia falar para os meus filhos me levarem. No mesmo dia nós fomos, fiz o exame e descobri que eu tinha câncer de próstata”, relata.

A cirurgia foi realizada com urgência, devido ao estágio que a doença se encontrava. Após a recuperação, seu Osvaldir começou a notar que estava com dificuldades, começou a entristecer-se por não conseguir fazer o que mais gostava. Foi quando ele novamente procurou o urologista.

“Cheguei para o doutor e expliquei, que eu sentia vontade mas não funcionava mais, que estava devagar e perguntei o que poderia ser feito. É triste você sentir vontade e não conseguir. Então, ele me indicou que eu colocasse uma prótese. Coloquei e voltei a ativa, mas logo a prótese quebrou. Tive que colocar outra”, conta.

A prótese peniana é utilizada em casos em que há uma disfunção erétil, ou seja, quando o homem tem dificuldades em atingir ou manter a ereção, o que por muitas vezes afeta a sua autoestima e a sua confiança para manter relações sexuais. O dispositivo é inserido cirurgicamente no interior dos canais de ereção e tem como objetivo reproduzir a mesma.

Ele revela que depois dele, muitos dos seus amigos também decidiram por usar uma prótese. “Nunca tive medo de falar sobre o assunto, comentei para os meus amigos, falei que estava funcionando bem, que estava vivendo bem a vida. No início eles ficaram meio desconfiados, mas muitos deles também passaram a usar”, diz.

“Hoje não acontece mais na frequência que eu gostaria, como era antes. O sexo trouxe muitas coisas boas para mim, trouxe meus filhos, que me dão muita alegria. Mas mesmo com as dificuldades que tenho hoje, não deixo de praticar”, finaliza. 

A importância de um urologista para a saúde sexual masculina

Assim como aconteceu com seu Osvaldir, muitos homens deixam de visitar um urologista por receio, ou por sentir a sua masculinidade ferida devido ao método utilizado para a realização do exame. Porém, aos poucos, essa ideia vem mudando. Em Veranópolis, por exemplo, a procura por consultas com esse profissional tem crescido de maneira significativa.

Segundo o médico urologista Nury Jafar Abboud Filho, a prevenção é um ponto muito importante. De acordo com ele, os cuidados para fazer uma terceira idade saudável devem ser pensados bem antes e construídos ainda desde a juventude. “O que a gente planta na juventude será colhido nessa idade. A velhice bem construída é melhor usufruída. Se a pessoa é desregrada ao longo da vida, obviamente as doenças serão mais frequentes nessa fase da vida”, relata.

A atividade sexual após os 60 anos não pode ser um mito, constata Nury. Na realidade ela é saudável e auxilia para que haja uma maior longevidade. 

Impotência 

De origem multifatorial, a impotência sexual atinge mais de dois milhões de homens no Brasil, sendo considerada muito comum em nosso país. O colesterol, calcificação de vasos sanguíneos que nutrem o pênis, stress e humor são alguns dos fatores que influenciam diretamente para que ela ocorra.

“Uma boa qualidade de vida e atividade física ajudam a evitar a impotência. Então quanto mais condicionamento físico o homem tem, melhor a ereção, e menor a chance de passar por uma situação de impotência. Ter uma vida regrada evita o uso de medicações que implicam no desempenho sexual”, reforça.

 

A impotência é provocada por uma série de fatores, esclarece o urologista Nury Jafar Abboud Filho

E usar viagra, pode ou não pode?

Com o passar dos anos, diferentemente das mulheres, o homem não cessa a produção hormonal, mas a partir dos 40 anos, essa produção vai diminuindo de 1 a 2%, revela Nury. Logo, quando se chega na terceira idade estes níveis estarão mais baixos, implicando na perda da libido, alteração de humor e a temida impotência.

Por conta disso alguns recorrem ao uso de medicamentos que auxiliam no desempenho neste momento. Mas, assim como qualquer outro remédio, há efeitos adversos. E se tomado de maneira deliberada, sem indicação e acompanhamento médico, os resultados podem custar a vida do paciente.

“Remédios como o viagra e similares podem sim ser utilizados, mas com indicação médica. Antes de ser prescrevida, pedimos para que o paciente realize exames, e fazemos todo o mapeamento da sua saúde, e só após investigar o histórico dele é que recomendamos o uso ou não do mesmo. A medicação é sim efetiva, mas os seus efeitos podem ser severos em pacientes que apresentem doenças cardiovasculares de base”, alerta.

Excluindo os problemas de saúde, o viagra apenas apresentará possíveis efeitos colaterais mais simples, como coriza, dor de cabeça e/ou intolerância gástrica – implicações comuns também em outras medicações. Nury ainda ressalta que o remédio não é uma poção milagrosa, e que, se não se buscar por uma rotina saudável “não há medicação que resolva”, afinal, a colaboração do paciente é essencial. 

Saúde sexual feminina

Apesar de ainda sentirem uma espécie de constrangimento ao visitar um médico ginecologista, as mulheres desde muito cedo já procuram cuidar da sua saúde. Ainda há uma resistência por parte das mulheres mais velhas, porém, é uma estatística que vem diminuindo ao longo dos anos.

Angela Cristina Siviero, ginecologista e obstetra, esclarece que as mulheres vêm mudando a forma como enxergam o sexo. “Há alguns anos atrás, as mulheres não podiam se conhecer, descobrir o corpo, ou escolher orientação. Estamos agora em uma fase de transição, pois convivemos com essa geração que foi criada com essa ideia, que já se permitiu, e uma geração mais aberta que se permite. Mas ainda há aquelas que se omitem ao falar, não se tocam, descobrem, tem vergonha ou se bloqueiam e precisam de ajuda para se conhecer e tirar o tabu. E há também aquelas que se abriram e se permitiram”, diz.

Angela Siviero reforça os cuidados com a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis

Benefícios de uma vida sexual ativa

O sexo, segundo Angela, acaba sendo muito mais que o ato sexual.  É um conhecimento do seu corpo. É saber se tocar, descobrir onde tem prazer, e também se permitir saber se você quer ou não ter uma relação. Além disso, há uma série de benefícios  se houver a prática do sexo nessa idade.

“Para a mulher na terceira idade, o sexo tem um grande benefício na autoestima. Há estudos que defendem que o ter prazer, ou chegar no orgasmo aumenta a parte cognitiva. Além de deixar a pessoa mais alegre e aumentar a longevidade. Para a mulher metade da relação é orgânica e a outra metade é imaginação. Ela precisa do romantismo, de criar a cena, a situação. Ela sente mais prazer no momento, do que na parte genital propriamente dita”, revela.

A ginecologista ainda faz um alerta importante quanto às doenças sexualmente transmissíveis. “Algumas mulheres que estão nesta fase da vida, acabam tendo novos parceiros. Elas só não podem esquecer que a prevenção é algo de suma importância, pois elas podem contrair alguma DST”, reforça.

Para encerrar, Angela ainda afirma que a relação deve ser benéfica para ambas as partes e deve ser algo que não seja feito por obrigação. “O prazer é se descobrir, e não colocar culpa no parceiro, no corpo ou na idade. O prazer existe dentro da gente, não tem limite, não tem idade e nem tem forma correta”, conclui.