Pio e Ana, mais de sete décadas de um amor sincero

Mais de setenta anos de um amor que cresce a cada dia, um amor que superou dificuldades e tristezas, um amor que vê a alegria nas pequenas coisas.

Neste Dia dos Namorados, contaremos uma história de amor inspiradora, uma história que mostra que um relacionamento pode ser duradouro. No auge dos 71 anos de casados, Ana Idalvina Pitol Weairich e Pio Weairich superaram muitos desafios para estarem juntos nestas mais de sete décadas.
Ana diz ao seu marido: “Para mim, você é o homem mais lindo do mundo!”; e todo tímido, o esposo, Pio, a olha e sorri. O pedido de namoro, foi um pouco diferente para a época, conta ele, com orgulho: “Ela pediu para mim, ela que me achou!”. 

Pio e Ana se conheceram na juventude, na festa de casamento de uma irmã de Ana com um amigo de Pio. Lá eles se viram pela primeira vez e isso bastou para terem certeza de que teriam um futuro juntos. Naquela época, o namoro era bem diferente, não tinha como se comunicar a não ser pessoalmente. Então, eles contam que se viam nos domingos e que Pio precisava atravessar o Rio Carreiro para chegar até a casa de sua amada; só não ia quando o rio estava muito alto e precisava se explicar com Ana no final de semana seguinte, como diz o filho Olivar, aos risos: era “rédia curta”. Ele morava em São Valentim do Sul e ela em Cotiporã; quando se conheceram, ele tinha 20 anos e ela 16. 

Mas não pensem que tudo foi mil maravilhas, Pio relata que ouviu dizer que a sogra criticou o namoro: “Minha filha bela e ‘jhovena’ namorando um lá do Rio Carreiro”, coisas bem comuns de relacionamento de sogra e genro, que hoje fazem a família dar belas gargalhadas. 

O amor entre os dois sempre foi muito forte e verdadeiro. Depois de um tempo que se conheceram, Pio buscou guardar dinheiro para comprar as próprias terras para garantir a subsistância da futura família que ele e Ana criariam. Nesse período, ele trabalhou em Bento Gonçalves e depois serviu o Exército; quando retornou, namoraram e depois se casaram. 

Comparando o namoro de antigamente com os dias atuais, Pio afirma que “era mais sério, os de agora são muito livres”. Ana complementa colocando que naquela época demorava muito para se conhecer bem, hoje é tudo muito rápido. Por isso, ela compreende que os relacionamentos eram mais duradouros, não existia morar juntos simplesmente, namoravam e casavam, e muito menos se falava em separação. 

O segredo para manter uma relação por tanto tempo, para eles, resume-se em duas palavras: paciência e respeito. “Respeite para ser respeitado; trate as pessoas bem; evite brigas e seja generoso”, assim que os dois aconselham seus filhos, netos, e agora, seus bisnetos. 

O dia do casamento, 17 de abril de 1948, é lembrado por eles com muita alegria: de manhã, a comemoração era na casa da noiva, e à noite, na casa do noivo. Ana recorda que o percurso entre os dois locais foi feito por eles a cavalo. 

A união deles resultou em nove filhos: Marilde e João Carlos ‘in memoriamm’, Ivone, Ivaldo, Dinorá, Zenaide, Marinês, Marilde e Olivar, que os presentearam com 16 netos e 13 bisnetos. Pio tem 94 anos e Ana 90 (completa 91 nesta quinta-feira, dia 13 de junho, dia de Santo Antônio que, segundo ela, a ajudou a encontrar a pessoa certa). Já ele faz aniversário dia 25 de junho, o Dia do Agricultor, sua profissão desde a juventude  em que permaneceu até dois meses atrás. Sim, com 94 anos, ele participou da colheita da última safra. A neta Lenita conta que ele só parou por causa de suas tonturas, sintoma comum devido à idade. 

Ana perdeu a visão há algum tempo, por isso, a filha Marilde, que mora com eles, cuida diariamente da mãe. “Quando comecei a perder a visão fiquei muito triste, porque eu gostava muito de ler, lia em todos os momentos que tinha uma folguinha”, diz Ana. Mas o que ela não gosta é de estar isolada das conversas; a filha conta que ela gosta de estar por dentro de todos os assuntos. 

Na foto, Pio e Ana com seus filhos, na festa de Bodas de Vinho, realizada ano passado.

 

A fé e os valores 

 

O casamento dos dois teve muitas alegrias, mas como Ana mesmo diz, “sempre tem algum espinho no meio”. Assim que casaram, foram morar na casa da família de Pio e depois mudaram-se para Bento Gonçalves, com a primeira filha. Quando vieram para Cotiporã, além desta filha de 13 anos, tinham outros seis. E, certo dia, estava o pai com seus filhos no parreiral e um raio atingiu a filha. Esta foi uma das grandes tristezas enfrentadas por eles, a perda da primeira filha. Além dela, perderam um filho com 56 anos e um bisneto com cinco anos. Porém, para superar esta e outras demais situações, ao lado deles sempre esteve a fé. Algo que foi passado para eles pelos pais e que seguiu através de todas as gerações, até hoje. 

O compromisso sagrado para eles é a missa aos domingos; sempre deram um jeito para participar. Podia ser indo a pé, a cavalo ou pegando carona com vizinhos. Quando moravam em Bento, pagavam uma anuidade para um vizinho que possuía um caminhão para que todo os domingos a família fosse à igreja. Hoje, Ana controla a frequência com que filhos, netos e bisnetos vão à missa: “A minha alegria é saber que todos eles vão na igreja, mesmo que uns vão mais e outros menos”, diz Ana. 

A criação dos filhos foi uma época muito boa; Ana cuidava e Pio trabalhava na roça. “Parece que sempre foi uma alegria”, afirma Ana sobre os 71 anos de casados. Eles afirmam que passaram por dificuldades, mas nem tanto: “nos contentávamos com muito menos do que temos hoje, éramos felizes com o que tínhamos”, contam. 

A vida para Pio não tem segredo nenhum: “o que eu guardo é que não posso me queixar da vida, batalhei e consegui comprar as nossas terras aqui em Cotiporã; e hoje faz 58 anos que estou aqui”. A honestidade é um dos valores que Pio se orgulha de ter carregado, assim como Ana, que salienta a importância de repartir. 

 

‘Saúde de ferro’ 

 

A dica para passar dos noventa anos com boa saúde é não exagerar no trabalho e manter uma boa alimentação. “Nunca trabalhei nos domingos e nos dias de chuva, e trabalhávamos de acordo com o que conseguíamos; nada de querer fazer tudo num dia”. Pio joga cartas até hoje, sem óculos e, segundo o filho Ivaldo, ainda fiscaliza se os filhos e netos estão jogando certo.

Os filhos Olivar, Ivaldo e Marilde contam que a mãe sempre gostou de almoços com vários tipos de comida, e mais do que cozinhar, Ana diz que gosta que as pessoas comam, gosta de casa cheia. E isso não é difícil. No último aniversário, Pio quis convidar só os filhos e suas famílias, o que totalizou 46 pessoas. Com risos, os filhos contam que os finais de semana são agitados, muitos carros no pátio, congestionamento de pessoas na área da casa e muita comida. Eles brincam: “cada reunião da família vai um porco e uma vaca!”, risos. 

E é isso que Ana e Pio gostam, de ver sua família unida, todos felizes, se querendo bem, se respeitando e, principalmente, ajudando uns aos outros. “Os bisnetos se penduram no meu pescoço e dizem: ‘biso, biso’. Eles se contentam com um dinheirinho, um doce, sempre dou alguma coisinha”, com um sorriso no rosto afirma Pio, que também os alegra levando-os para dar milho para as galinhas. Ana identifica todos apenas pela voz, fica triste por não poder vê-los, mas os sente: “é até uma pena ficar velho, com todas as alegrias que a família nos traz”. Uma grande família, que foi criada por um casal que se ama, um casal que até hoje vive junto; um se preocupa com o outro, um está ao lado do outro, dando um belo exemplo aos filhos, netos e bisnetos. 

De mãos dadas ao longo das décadas, as marcas do tempo os modificaram fisicamente, mas o amor cresce a cada dia.