Tatuagens: história e emoções retratadas em arte

A segunda parte da reportagem especial sobre tatuagens conta três histórias que mostram que tatuar é muito mais que retratar momentos, é eternizar vivências na pele.

Você certamente conhece alguém que tem um desenho gravado na pele. Ou é você que tem uma tattoo? Usadas para marcar um momento importante, fazer uma homenagem ou simplesmente para embelezar o corpo, as tatuagens têm suas origens muito antes de Cristo. Com o passar do tempo e dos acontecimentos históricos, os estilos de tatuagem foram mudando, assim como o público adepto a carregar esse tipo de arte na pele. 

 

Eternizando um sentimento 

 

Para o tatuador Cascata John, de Veranópolis, fazer tatuagens de homenagens é muito gratificante, pois acaba fazendo parte daquele momento especial. E um desses trabalhos inesquecíveis foi realizado em fevereiro deste ano. O veranense, Rogério Barriquel, de 29 anos tinha o desejo de fazer uma tatuagem homenageando seu filho, Lorenzo Augusto de 7 anos, mas ficava na dúvida do que fazer. Passou cerca de dois anos pensando na tatuagem, pois queria fazer algo que unisse todos os sentimentos, e não é que conseguiu? 

Tatuagem homenageia filho.

A partir de um registro da mamãe Andrieli Brandt de um abraço de pai e filho, Rogério teve a certeza que aquela imagem retratava o amor que sentia pelo filho, que também estava ansioso com a tatuagem apesar de estar preocupado se o pai iria sentir dor. “A foto foi feita em um momento despercebido, o Lorenzo recém tinha retornado da casa da vovó”, contou Rogério. 

Apesar de alguns momentos de dor na realização da tatuagem, que teve a duração de 11 horas, divididas em duas sessões, Rogério confessa que valeu cada minuto pelo significado e sentimento que a tatuagem carrega. “Na foto tem muitas simbologias: o abraço de pai e filho, o número 14 que é o dia do meu aniversário no boné, o número da camisa com a qual eu jogo bola desde pequenininho e também o detalhe da bola que é uma paixão minha e também do Lorenzo”, afirma. 

Sem dúvidas, ao olhar a tatuagem, o sentimento é de alegria e orgulho por ter juntado em uma única imagem dois amores: o filho e também o futebol que até hoje se faz presente na vida dos dois. Rogério destacou que Lorenzo joga desde o seu primeiro aninho quando aprendeu a caminhar, e, inclusive, quer ser goleiro e já tem até um apelido muito forte na escolinha: “Taffarel”.  “O maior significado de toda essa tatto é o amor de pai para filho, sentimento esse, que não se explica, apenas se vive”, com emoção, relata.

 

Superando a dor com a música 

 

Aline Taglian Rigo, 24 anos, de Fagundes Varela, marcou na pele, o símbolo da música que retrata um momento difícil que superou. Ela relata como foi:

“Aos meus 17 anos, trabalhava no Supermercado M&A e estudava no Colégio Estadual Ângelo Mônaco. Em uma segunda-feira, dia 02 de abril de 2010, levantei e fui para o trabalho. De manhã, estava organizando os produtos, como fazia diariamente. Quando comecei a notar que estava perdendo minha voz, meus colegas vieram ver o que estava acontecendo e eu não conseguia falar, comecei a chorar muito, ao mesmo tempo, não senti mais meu braço e minha perna do lado direito. Acabei desmaiando… 

Aline encontrou na música
uma forma de recuperação.

Fui levada para o Posto de Saúde, em seguida, fui para o Hospital de Veranópolis, onde me encaminharam ao Hospital Tacchini, de Bento Gonçalves. Lá, acordei somente na quarta-feira. Com os exames foi diagnosticado que tive um AVC hemorrágico. Ao todo, foram mais de 15 dias no hospital. Realizei outra ressonância que constatou que havia outra veia prestes a estourar, mas no hospital de Bento, não havia recursos para queimá-la. Então, fui encaminhada para um especialista em São Paulo. No total, foram 14 viagens, onde fiz o procedimento para queimar a veia e todos os exames necessários.

Ao receber alta e voltar para casa, precisei me readaptar. Passei por fisioterapia e fonoaudiologia, pois perdi minha fala e movimentos do lado direito.   

Nesse tempo, o que mais me acompanhava eram as músicas, passava meus dias fazendo meus exercícios e ouvindo música. E foi através dela e da minha força de vontade que acabei esquecendo tudo o que aconteceu e dando a volta por cima.  A música me fazia pensar no quanto nossa vida é preciosa. Se eu passei por esta doença e hoje estou aqui, é porque Deus acreditou em mim, que eu iria vencer. A música me deixava tranquila, e foi nesse embalo que superei meus desafios, cantando muito! 

E em homenagem a minha superação, no dia 24 de abril de 2016 fiz minha primeira tatuagem, que foi o símbolo da música, para jamais esquecer que estamos nessa vida para viver e vencer todos os dias. A música se tornou parte de mim e até hoje vivo cantando e agradecendo a Deus por ter vencido tudo isso. Hoje trabalho como vendedora em uma loja de roupas, faço meus exames em São Paulo, uma vez por ano e mantenho contato com meu médico. Procuro cuidar cada dia mais da minha saúde. 

E se eu puder deixar uma mensagem, é que todos deveriam viver o momento presente, cada segundo, sem reclamar das situações, pois o dia de amanhã é incerto. A única certeza é o agora, então viva, viva muito, aproveite as oportunidades e os momentos, pois são únicos. E nunca se esqueça de agradecer a Deus, por cada detalhe vivido!”.

 

 

 

“Sempre será um pedaço de mim”

 

A fagundense Paloma Molossi de Lima, 21 anos, também registrou no corpo, a superação de um momento difícil.

Paloma homenageou seu 
grande amor.

“Descobri minha gravidez aos 18 anos. No início foi difícil, não estava preparada, mas logo me acostumei com a ideia de ser mãe e estar gerando uma nova vida! Comecei a fazer acompanhamento pré-natal e a cada ecografia ia me apaixonando ainda mais. Com quase quatro meses descobri que era uma menina, o que sempre foi meu sonho. No sexto mês de gravidez comecei a inchar bastante, achei que fosse normal, até que estranhei que a minha bebê, sempre agitada, estava mais calma, mexendo pouco. Chegando na consulta, nem imaginava que estava prestes a descobrir algo ruim. A obstetra fez os procedimentos e verificou que minha pressão estava alta, foi aí que descobri que tinha a chamada “pré eclampsia”. 

Fui internada no hospital em Caxias, pois meu estado era grave, minha pressão não baixava e estava prejudicando minha filha. Continuei internada porque queriam esperar até eu completar as 28 semanas, se fizessem a cesárea antes, seria arriscado para nós.  Minha bebê estava com poucas chances de sobrevivência. Até que na tarde do dia 1 de julho de 2017, às 16h, estranhei, pois, ela não havia mexido nem uma vez desde o meio dia. Então, a enfermeira veio ouvir os batimentos e não conseguiu, nesse momento mandou eu não me preocupar pois de repente o aparelho estava com problema. Mas dentro de mim algo já me dizia que não estava nada bem. Me levaram pra uma outra sala para ouvir em um aparelho diferente e mesmo assim, nada! Nesse momento, pensei em me desesperar, mas fui forte e segurei.

Fiz uma ecografia detalhada; enquanto estava deitada prestava atenção, ansiosa para ouvir o melhor som do mundo, o coração da minha filha. Entretanto, meu chão caiu assim que vi uma linha reta em minha frente, o pior tinha acontecido! 

E dois dias depois, no dia 3 de julho às 13h53min, aconselhei minha mãe, que estava muito preocupada, para que fosse almoçar, pois não sabia quando ia ganhar e podia demorar ainda mais. Assim que ela saiu do quarto, as contrações aumentaram e eu dei à luz à bebê sozinha, não consegui chamar ninguém. Até hoje, acho que era pra ser assim, só eu e ela! Esse momento tinha que ser nosso!

Os dias depois desse foram complicados, a saudade vinha me visitar todos os momentos, precisei fazer tratamento com antidepressivos. E foi nesses momentos de saudades que decidi fazer uma tatuagem para ela, que é meu anjo. Ela fez parte da minha vida e me tornou uma pessoa melhor. Decidi homenageá-la dessa maneira. Além de estar sempre em minha memória e em meu coração, também estará tatuada em meu corpo.”