Ex-frei Irineu Costella se derrete ao falar da esposa: “Um espetáculo de mulher”

A lista de qualidades é extensa e pronunciada com voz calma e tranquila pelo interlocutor do outro lado da linha. Extraordinária, competente, inteligente, maravilhosa, comprometida com o social, atenciosa e “um espetáculo de mulher” são apenas alguns dos predicados elencados por Irineu Costella, 68 anos, para definir a esposa, a pastora Ana Isa dos Reis, 39 anos.

Da sua nova residência, em Blumenau (SC), o agora ex-frei fala com serenidade sobre os novos rumos de sua vida e ressalta que não carrega arrependimentos pelos 41 anos e seis dias — como gosta de frisar — dedicados à Igreja Católica. 

— Achei que viveria assim (como sacerdote) a vida inteira, mas Deus tem surpresas para a gente também, e precisamos escutar outras possibilidades — avalia. 

Figura conhecida da comunidade católica gaúcha, Costella esteve à frente de igrejas como a do casamenteiro Santo Antônio e, mais recentemente, a São Judas Tadeu, ambas em Porto Alegre, além de atuação em Ijuí e Caxias do Sul. No fim de 2018, abriu mão da batina para viver a experiência ao lado daquela que o conquistou “pelo lado afetivo e pela missão”. Ao tomar a decisão, informou os confrades e iniciou o seu processo de licenciamento: 

— As pessoas diziam: “Se essa é a sua escolha, a gente apoia e vai rezar por você”. Soube por outros que teve gente que estranhou muito. Mas eu os entendo. 

Afastado da Igreja desde janeiro de 2019, ele aguarda o desligamento oficial, que ocorrerá no prazo de um ano, com o encaminhamento do pedido à Santa Sé, no Vaticano. Para ele, a decisão é definitiva: 

— É difícil que eu volte. Seria uma irresponsabilidade com ela (Ana) e desaprovaria toda a minha vida.

Distância foi o alerta para novo sentimento

 A história de Costella e Ana Isa vem de longa data: eles se conheceram em 2008, em Ijuí. Na época, ele era pároco da igreja São Geraldo, e ela, pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil. Ambos acabaram vivendo no município do Noroeste por acaso. 

— Ela foi enviada para lá, eu também. Não escolhi — relembra. 

Trabalharam juntos em diversas oportunidades e participaram de forma ativa da Comissão Municipal de Igrejas Cristãs (Comic). Ana Isa chegou ao posto de presidente da Comic, e Costella, de secretário. Dessa forma, por intermédio do trabalho conjunto das igrejas, a dupla se aproximou cada vez mais. 

— Sintonizávamos muito nas ideias, aprendi muito na perspectiva da Igreja Evangélica. Ficamos mais próximos como amigos. Então, em 2014, assumi a São Judas Tadeu (em Porto Alegre). Com a distância, começamos a nos questionar (sobre o que sentiam um pelo outro) — relata. 

Não tinha insatisfação. Só muita gratidão à Igreja Católica. Sempre fui muito feliz. Não havia problema com a Igreja. Pensamos juntos, e nossa decisão era de trabalharmos juntos e contrair matrimônio. Eu queria estar completamente ao lado da minha esposa. Me sentiria mal se ela fizesse o culto aqui enquanto eu frequentasse a missa católica.

Foram necessários três anos para amadurecerem a ideia de trabalhar juntos de novo. O movimento rendeu, inclusive, uma carta ao Vaticano, propondo uma parceria entre as igrejas. Sem retorno, começaram a esboçar novas possibilidades para o reencontro. Foi então que Ana sugeriu a atuação dos dois em outra cidade. 

— Ela abriu a possibilidade de nos apresentarmos em outra comunidade e escolheu Blumenau. Em outubro de 2018, fez o currículo para concorrer a uma vaga de pastora lá. Eram 21 candidatos. Ana ficou entre os três primeiros. Eles foram convidados para fazer um culto no município. Ela veio, fez o culto às 9h e ficou até as 18h na comunidade. Quando me ligou, eu disse: “É claro que tu vais ser escolhida”. O resultado saiu em novembro, ela recebeu 38 dos 41 votos, gostaram muito dela. 

Logo após a notícia, ele informou aos superiores da sua decisão, sempre deixando claro que não havia acontecido “nada de errado”. 

— Não tinha insatisfação. Só muita gratidão à Igreja Católica. Sempre fui muito feliz. Não havia problema com a Igreja. Pensamos juntos, e nossa decisão era de trabalharmos juntos e contrair matrimônio. Eu queria estar completamente ao lado da minha esposa. Me sentiria mal se ela fizesse o culto aqui enquanto eu frequentasse a missa católica. Como eu abracei essa proposta de uma nova forma de vida por ela, não teria sentido (não mudar de Igreja). 

Desejo de aumentar a família  

 Em 13 de fevereiro de 2019, os dois se uniram no civil e tiveram uma bênção três dias depois, em Timbó, cidade natal da noiva, em Santa Catarina. Em seguida, partiram para alguns dias de lua de mel no município de Palmeira, também em Santa Catarina. Agora, trabalham na organização da casa paroquial, com dois quartos de hóspedes, e aproveitam os momentos de folga para visitar a família de Ana, em Timbó, e para conhecer os municípios vizinhos. 

— Há tanta gente com casa na praia nos oferecendo as residências que vamos ter de ir — conta, rindo. 

Além do trabalho conjunto — ele faz questão de receber e se despedir dos frequentadores dos cultos ao lado da esposa, embora não tenha um cargo na Igreja Evangélica  —, o casal ainda pretende ter filhos. 

— No futuro sim, em respeito à comunidade que nos recebe agora. Essa era uma fala frequente da Ana — diz. 

Costella ressalta que deixou a Igreja Católica, mas não abandonou a fé: 

— As pessoas querem apagar a história, nós queremos conservar — afirma, dizendo que, na sala de liturgia que têm agora, preservam itens importantes da trajetória dele, inclusive dentro da Igreja Católica, como cálices e mantos.

Fonte: Rádio Gaúcha

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