Muito mais que um cenário de filme…

Gustavo Spolidoro retornou a Cotiporã e usou o município como cenário de seu novo filme. Na bagagem, memórias de um passado tão presente em sua vida

O município de Cotiporã foi cenário de mais um filme do diretor Gustavo Spolidoro. Depois da gravação de Morro do Céu (2009), Spolidoro retornou para a gravação do longa-metragem Os Dragões. O amor pelo município existe desde a infância do portoalegrense Gustavo, que passava diversos períodos em Cotiporã visitando sua avó, que é natural do município. As visitas a diversos locais da cidade marcaram a vida do cineasta que planejou utilizá-los homenageando Cotiporã, seus parentes e amigos, e a população em geral nas gravações de Os Dragões. 
“Cotiporã é uma das cidades mais importantes da minha vida, onde tenho grandes lembranças da minha infância, o cheiro das estrebarias, os bichinhos, as cachoeiras, os passeios e aquela comida maravilhosa. Tudo é bonito, é uma sensação de segurança, casas sem grades e um povo muito receptivo. Cotiporã guarda essa segurança e liberdade que acabamos perdendo por causa do medo que existe nas cidades grandes”, destaca Spolidoro. 
O primeiro filme de Gustavo na cidade, Morro do Céu, que foi gravado em 2008, destacou a história da comunidade descendente de italianos. O diretor construiu muitas amizades com cotiporanenses nesse período, a principal delas foi com o protagonista do filme, Bruno Storti, que, aliás, foi muito importante na formatação do filme Os Dragões. 
Porém, o jovem Bruno, faleceu aos 24 anos, em acidente de trânsito no ano de 2017, assim, os planos do diretor em relação ao novo filme precisaram ser modificados: “O protagonista de Os Dragões era para ser o Bruno, mas acabou sendo uma menina, Lóren Maite Panizzi, e a princípio os atores eram para ser jovens de mais idade, de modo que Bruno, hoje, teria 26 anos”, afirma, a produtora local de Os Dragões, Ângela Scarton Tafarel.  
Depois desse triste acontecimento, o diretor procurou a CIA Municipal de Teatro Arte in Cena, a qual Bruno participava, para atuar no filme. A diretora do grupo Adriana Titon Balotin fez uma exigência, que os 22 atores participassem. Como eles eram mais jovens, foi preciso readaptar a história. “Com o falecimento de Bruno não me senti mais à vontade para filmar com o pessoal mais velho, queria sair desses ares, da figura do Bruno. Então modificamos o projeto e os personagens principais foram jovens adolescentes”, complementa, o diretor do filme. 

Gustavo com o amigo Bruno
Gustavo com seu amigo Bruno

A trama ainda contou com a participação de diversos figurantes cotiporanenses, que mesmo não tendo relação com o teatro, segundo Ângela, foram muito profissionais.  Sendo assim, a contratação da cotiporanense, Angela Tafarel, para ser produtora, foi intencional, visando que era preciso conhecer diversas pessoas, a fim de selecionar figurantes e locais de gravação. 
O enredo do filme gira em torno da amizade de cinco jovens abordando temas como a adolescência e seus conflitos e a passagem para a vida adulta. O diretor utilizou metáforas, de modo que o longa tem um ar de realismo fantástico, pois os cinco amigos têm características únicas.  E segundo Ângela, por viverem em uma cidade pequena e possuírem dons especiais e pirotécnicos, sofrem com o preconceito e desconfiança dos moradores. 
 Os cinco protagonistas que fazem parte do grupo de teatro Arte in Cena,  Lóren Maite Panizzi, 16 anos, Paulo Reginatto Sbardelotto, 18, Raphael Luciano Scarton, 16, Larissa Tres, 16, e Juliana Zardo, 16, foram escolhidos por Gustavo por meio de entrevistas individuais, em que conheceu o perfil de cada um e selecionou os que mais se encaixavam com os papéis.        
De acordo com o diretor do filme, um dos grandes atrativos da cidade, além dos vínculos que ela tem com sua infância é a existência de grupo de teatro tão dedicado e talentoso. Segundo ele, se o grupo não existisse talvez não existiria o filme, pois a presença desses atores na cidade o instigou ainda mais a fazer a gravação do longa.  

O cinema liberta

De acordo com o diretor Gustavo Spolidoro, “o cinema é para libertar e não para dou-trinar”. Para ele a arte tem importância como uma forma de libertação, de crescimento e evolução do ser humano. “Quero que as pessoas vejam no filme aquilo possa alterar nelas emoção, interesse e amor, relação com a cidade, com sua família, mas não uma imposição ditada disso. O mais importante é uma reflexão so-bre a vida na adolescência, fase complicada, pois não somos nem mais crianças, mas nem adultos, então o adolescente está nesse hiato sofrido entre duas fases da vida”, afirma. 
O diretor conclui: “o filme aborda a necessidade que o adolescente tem de se expressar e ser livre, falar dos seus sentimentos e ser compreendido”. Ele espera que o filme possa ajudar os adolescentes, o público principal de Os Dragões, para que eles consigam se sentir aceitos onde vivem.

O dia a dia das gravações

A maior parte das gravações foi realizada em Cotiporã, onde, Gustavo escolheu, principalmente, lugares que marcaram sua vida. Porém, uma das cenas precisou ser gravada nos trilhos do trem em Garibaldi, por causa da estrutura e do local. Também foram filmadas cenas na divisa com Bento Gonçalves, na ponte do trem, no Rio das Antas.
Todas as gravações foram acompanhadas por Ângela Ta-farel, produtora local e Inês Storti, uma das produtoras de elenco. As duas cotiporanenses também tiveram participações como atrizes. Inês interpretou uma médica e Ângela uma cantora. Inês conta que sua personagem possuía uma ci-catriz, e que esse pequeno detalhe, exigência do diretor, deu muito trabalho para os maquiadores. Já Ângela des-taca que participou da escolha da música que cantou, sendo que já a conhecia, porém, foram necessários muitos dias de ensaio.
Elas afirmam que a rotina de gravações foi intensa. Em algumas jornadas, duravam 12 horas. Então, por exemplo, se iniciavam às 15h terminavam apenas às 3h da madrugada. E após a finalização, era passada a ordem do dia seguinte. As produtoras precisavam organizar todas as questões que envolviam a gravação: local, figurantes, atores. “Não tínhamos um cronograma de locais de gravação, era diário, pois não tínhamos como prever. As filmagens aconteciam durante o dia e a noite. A ordem do dia era elaborada a partir das decisões tomadas, em relação a previsão do tempo e outras situações”, conta Ângela. 
O roteiro do filme surgiu a partir de ideia de Gustavo Spolidoro e Murilo Rubião, e o responsável pela roteirização foi Gibran Dipi. O diretor des-taca que o roteiro passou por inúmeras alterações. Segundo Inês, os atores tiveram alguns desafios, pois diferentemente do teatro, não era preciso deco-rar textos, apenas seguir o roteiro. “Foi uma experiência totalmente nova para nós. Gustavo seguiu uma linha, que presa a espontaneidade e linguagem coloquial, nada era decorado. O que para os atores não era fácil, pois vinham de outro método”, aponta, a produtora de elenco. 
A duração das gravações foi de um mês e uma semana, durante setembro e outubro de 2018, e, nesse período, os atores principais, que ainda estudam, precisaram se afastar da escola. Inês e Ângela contam que para eles foi muito puxado, foi preciso conversar com os diretores das escolas, pedindo liberação. Mas, todos entenderam. 
A respeito da atuação dos atores no filme, Gustavo Spolidoro coloca que foi maravilhosa. Salienta a dedicação que eles tiveram em busca de entender os personagens e criar suas biografias. Ele contou com o auxílio de Larissa Sanguiné, diretora de teatro de Porto Alegre, no trabalho de imersão dos atores com seus personagens. “Nesse processo eles deixavam de ser eles e passavam a ser esses personagens e entendê-los. O resultado foi excelente, quando vimos eles interpretando, observamos a qualidade e a entrega, chegávamos a nos emocionar em diversas cenas. Com certeza, quando o filme ficar pronto, as pessoas irão se surpreender”orgulhoso, coloca o diretor. 

Cotiporã se envolveu

Uma cidade tão calma, de uma hora para outra modifica seu cenário, ruas são trancadas, caminhões e estruturas chegam, e os moradores, segundo Ângela e Gustavo, contribuíram bastante com tudo isso. “A comunidade foi ótima, fechávamos a rua principal, no meio da semana em horário comercial e as pessoas estavam curtindo, sorrindo e colaborando conosco”, destaca o diretor.
Sem dúvidas, a gravação do filme agitou a cidade, pois o diretor veio com uma equipe de 30 pessoas, que ficaram hospedadas em Cotiporã. Até mesmo os restaurantes ajudaram, pois, as refeições, muitas vezes, eram feitas totalmente fora do horário, devido à rotina de gravações. “ Esperamos que as gravações tenham sido positivas para o município, pois uma boa parte do volume financeiro do filme acabou entrando para a cidade. Seja em diárias de hospedagem, alimentação, supermercados, locações de veículos, cachês de elenco e de figuração”, aponta Spolidoro. 
O sucesso das filmagens e de todo o período, de acordo com Ângela e Inês se deu devido à união da equipe. “A equipe era muito unida, ele escolheu uma equipe a dedo. Tu podes pegar uma equipe de uma escola de teatro, pronta. Porém ele escolheu só amigos dele, pessoas que confiava. E, também, colocou amigos antigos dele e parentes como figurantes”, apontam. 
Sem dúvidas, a relação do diretor com essa história garantiu que tudo corresse bem. Segundo Gustavo, que inclusive já recebeu o prêmio de cidadão cotiporanense pelo seu envolvimento com o município, esse é o filme de sua vida.  Cotiporã foi apresentada a ele através de sua avó, Inês, que hoje reside em Porto Alegre. Ele a agradece por ter conhecido a cidade. “Para mim é muito bom estar em Cotiporã, tenho muitos amigos de diversas gerações e diversas esferas, tem meus parentes. Me sinto muito em casa, conheço as pessoas, da mais simples ao prefeito, acho que é bacana manter isso. Inclusive, tenho outros projetos para Cotiporã, outros filmes e projetos futuros, tomara que eu volte em breve”, afirma, Gustavo.  
“Os Dragões” é uma produção da GusGus Cinema com Distribuição da Lança Filmes. Viabilizado pelo Edital PRODECINE 2016/02 da Ancine e Fundo Setorial do Audiovisual. Tem Produção Executiva de Patrícia Goulart e Chico Deniz,. Direção de Fotografia de Bruno Polidoro, Direção de Arte de Manuela Falcão, Som Direto de Gabriela Bervian e Marcelo Armani e Montagem de Bruno Carboni. Segundo o diretor, o filme deve ficar pronto no segundo semestre de 2019. Inicialmente ele será exibido em festivais, e o lançamento deverá ser a partir de março de 2020 e provavelmente, a partir desse período será exibido em Cotiporã.

Equipe técnica e alguns atores