Calorão sem precedentes é previsto para o Rio Grande do Sul

Em função das altas temperaturas e do sol intenso, poucas pessoas passeavam pela Orla do Guaíba nesta sexta O termômetro

Em função das altas temperaturas e do sol intenso, poucas pessoas passeavam pela Orla do Guaíba nesta sexta

O termômetro digital localizado na Praça da Alfândega marcava 38°C em torno das 13h30min desta sexta-feira. Era um calor abrasivo com uma sensação térmica de muitos graus acima do verificado, o que obrigou os porto-alegrenses a apelarem para roupas leves, bonés e chapéus nas ruas de Porto Alegre.

A MetSul Meteorologia tem alertado para o calor excepcional no Rio Grande do Sul, com a intensificação de uma massa de ar extremamente quente e persistente sobre o Estado. Na quinta-feira, por exemplo, foi registrado o nono dia seguido com máximas acima dos 40ºC no território gaúcho. E a tendência é o cenário piorar.

“A temperatura em algumas cidades deve atingir valores que as pessoas jamais experimentaram em suas vidas pela excepcionalidade do calor previsto que trará máximas sem precedentes em várias décadas e talvez até em um século”, salienta a meteorologista Estael Sias.

Durante a manhã, em função das altas temperaturas e do sol intenso, poucas pessoas passeavam pela Orla do Guaíba. O aviador Severino Filho, de 67 anos, que está a trabalho na cidade, alongava o corpo perto da Usina do Gasômetro. “Precisamos encarar o calorão evitando os horários mais quentes do sol. Aqui na Orla até é agradável, mas no Centro o calor está insuportável”, atesta o morador do Rio de Janeiro, que está hospedado em um hotel na área central.

Em dias assim, quem ganha a vida com a venda de água costuma faturar bem. “Quando faz esse tipo de calor chego a vender sete fardos com 12 garrafas de água. Também vendo uns 50 cocos”, estima o comerciante João Faustino, 38, que atendia um cliente perto da estátua em homenagem à cantora Elis Regina.

Um banhista cantava alto enquanto nadava nas águas do Guaíba perto dali. No local proibido para banho, uma placa alerta para o perigo de afogamentos. Sentado na sombra de uma árvore, o porteiro Cláudio Medeiros, 51, aproveitava para se refrescar com água. “Pratico exercício de manhã e no final da tarde. Venho jogar capoeira e pedalar na Orla”, conta. “Precisamos de muita água para nos hidratarmos”, acrescenta.

Em trechos com degraus, alguns sentavam para esperar o tempo passar ou simplesmente descansar. “Moro aqui perto e venho sempre de manhã”, diz a estudante Jéssica Viapiana, 22. Era o mesmo que fazia o eletricista Marco Aurélio, 56, ao lado de sua bicicleta. “Vim pedalando e estou pegando uma sombra. Lá em casa, minha piscina está com a água na cor verde por causa do calor. Assim como está dá para fritar um ovo no chão”, acredita, dizendo que estava de folga no serviço.

Circulando pela Orla, poucos caminhavam ou praticavam esportes. Até na pista de skate a movimentação era abaixo do normal. No Parque Marinha do Brasil, algumas pessoas estavam sentadas em cadeiras na sombra das árvores. Perto da Fundação Iberê Camargo, uma mulher meditava na grama. “Saí de bicicleta do Moinhos de Vento e parei aqui. Daqui a pouco vou voltar pedalando”, disse a desenhista projetista Sílvia Patrícia, 60, sentada sobre uma toalha branca na grama bem próximo ao Guaíba. Segundo recorda, ela já viu calorões semelhantes na cidade. “Faz parte da natureza”, reflete.

A cerca de 20 metros dali, três jovens tomavam banho e brincavam nas águas. “Estou com medo, mas vou me refrescar”, gritou a única mulher do grupo lá de longe. Um outro ciclista passou pela ciclovia carregando um guarda-chuva aberto enquanto pedalava. Era possível perceber no semblante das pessoas que precisavam estar na rua, seja em função do trabalho ou de algum outro compromisso, uma espécie de desconforto. E a sensação deve seguir, pois a previsão é de mais calor nos próximos dias.

Segundo a MetSul, o recorde oficial de maior temperatura já registrada no RS pode ser ameaçado. A marca é de 42,6ºC e foi observada em Alegrete em 19 de janeiro de 1917 e, em Jaguarão, em 1º de janeiro de 1943. Estações meteorológicas particulares no interior gaúcho, em particular no Noroeste, têm, há dias, indicado máximas acima disso.

Porto Alegre, que possui dados desde 1910, anotou no domingo, dia 16, uma máxima de 40,3ºC. Foi a quarta maior máxima oficial na cidade em 112 anos de observações e apenas a terceira vez no último meio século, desde que os registros passaram a ser feitos no Jardim Botânico, em que a Capital anotou máxima acima de 40ºC. O recorde é de 40,7ºC de 1º de janeiro de 1943 e que por pouco não foi igualado em 6 de fevereiro de 2014 com 40,6ºC.

fonte: Correio do Povo