Do Vale do São Francisco para a Serra Gaúcha: novas técnicas de cultivo de uvas de mesa

A variedade de uvas de mesa vem crescendo na região e ganha atenção e cuidados especiais, com o aprimoramento de manejos e utilizando tecnologias diferenciadas. A repórter d’O Estafeta Daniela Affonso, esteve em Petrolina e, também, em Nova Prata, para conhecer a diferença entre os dois Estados na produção da uva. Conheça o trabalho dos irmãos Gabriel e Otávio.

A produção de uva, cultura permanente, é resultado da forte influência da colonização italiana e está concentrada principalmente no Nordeste do Estado com destaque para a região da Serra. 
A uva para vinho continua a representar a maior parcela dos plantios. Entretanto, alguns produtores, embora não tenham deixado de lado as uvas para as indústrias, acrescentaram outras variedades e formas de cultivo, optando pela uva de mesa, vendida in natura e, em alguns casos, colhida no próprio pé pelo consumidor.
Variedades essas, cultivadas sob plásticos, com técnicas que garantem mais qualidade final e redução na aplicação de agrotóxicos. 
Nos municípios da região, propriedades com áreas de cultivo com as uvas de mesa estão em fase de expansão, na medida em que os produtores vão dominando a novidade e se adaptando às exigências do novo cultivo de uva sob cobertura.
As principais razões para a expansão das variedades de uvas de mesa na Serra Gaúcha, conforme especialistas e produtores, são a necessidade de diversificação das propriedades e, principalmente, a demanda aquecida e o alto valor agregado dessas frutas.
Em Nova Prata, os irmãos Otávio e Gabriel Poletto inovam, utilizando tecnologia aplicada em Pernambuco para a melhoria da uva comercializada na região.

O Vale do São Francisco é a região que margeia o Rio São Francisco nos Estados de Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. É uma área fértil e que recebe diversos investimentos em irrigação federal e governamental, e que tornou-se um importante produtor de frutas e hortaliças. A sub-região que mais se desenvolve é compreendida pelas cidades de Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pernambuco). Nestes municípios encontram-se os maiores produtores de manga e uva do país, tendo alguns alcançado mercados externos. 
As áreas de uva de mesa cresceram no período 1991/1995 em 71,8%, assim como a produção que cresceu neste período em cerca de 344%. A vinicultura pernambucana/baiana já detém 15% do mercado nacional e emprega diretamente cerca de 30 mil pessoas. O clima altamente produtivo alia-se às águas do Rio São Francisco garantindo uvas de excelente qualidade.

Área de uvas de mesa em Petrolina.

Há cerca de 30 anos, o gaúcho Vilmar Cappellaro, natural de Ibiraiaras, conheceu Petrolina e lá iniciou o plantio de uvas de mesa. Com o tempo, levou irmãos, primos e sobrinhos, para o município aumentando as áreas de plantação. E na década de 90, a família fundou a empresa Cappellaro Fruits, que hoje possui uma área de mais de 300 hectares plantados e uma grande variedade de uvas cultivadas. Hoje, empregam centenas de trabalhadores, que realizam desde a plantação, cultivo, até a colocação das frutas em embalagens. 
A comercialização é centralizada na empresa que além de distribuir uvas embaladas para todo o Brasil, também exporta. São cerca de 20 famílias que fazem parte do grupo, e cada uma delas têm suas áreas e sua identificação que é por cores (tarjas coladas em todas as caixas), a fim de especificar quem produziu as uvas. 
A principal diferença da produção de uva no Nordeste com o cultivo na Serra Gaúcha é o clima de lá que garante a realização de duas safras por ano. Dá-se um repouso de 60 dias, no máximo, e se inicia com a poda em cima da mesma área. 
Segundo Edison Defaveri, técnico em agropecuária e membro do grupo Cappelaro Fruits, outra distinção é a tecnologia aplicada. “Lá, é utilizada toda a tecnologia possível pelo clima e pelo solo, que é totalmente arenoso; é preciso colocar todos os nutrientes que a planta precisa semanalmente”, afirma. Ele acrescenta que na Serra Gaúcha dever-se-ia utilizar mais tecnologia a fim de aumentar a produtividade e qualidade das frutas. 
Os parreirais da família fazem parte dos projetos de irrigação do Vale São Francisco, que são realizados pelo Governo. É realizada uma pesquisa, verificando se no local há condições de produzir, após é elaborado o projeto. Os canais de água ficam próximos às propriedades e garantem a irrigação, que pode ser por gotejamento, micro aspersão ou por difusão; cada produtor adapta, dependendo do solo. 
Graças à produtividade do solo, as variedades cultivadas evoluem continuadamente. Edison explica que tudo iniciou com variedades como a Itália, Patrícia (que não mais existe), Benitaka, Red Globe. E, atualmente, são cultivadas Benitaka Brasil e Melhorada, Itália Melhorada, Nubia, e se está partindo para uvas sem sementes, como a Isís, Vitória, Thompson, Crimson. Existem variedades importadas em que é necessário pagar royalties, além de variedades desenvolvidas pela Embrapa e outras empresas. 
A média de produção de uva é de 30 toneladas por hectare/safra, o que resultaria 60 toneladas por hectare anuais, sendo que são feitas duas safras, exceto algumas variedades como a Thonpson, que produzem apenas uma. 
No Vale do São Francisco são produzidas, além de uvas, manga, goiaba, coco, maracujá, acerola, pitaya, pinha, abacate, mamão, banana, e se está começando o cultivo de maçã e pera. Edison coloca que o que for plantado produzirá, a não ser frutas de caroço como ameixa e pêssego, pois elas precisam de frio. 

Influência para a Serra

Foi a partir das técnicas utilizadas em Petrolina que os irmãos Otávio e Gabriel Poletto investiram na produção de uvas finas de mesa, em Nova Prata. Eles possuem uma área coberta de 0,5 hectare logo na entrada do município, chamada VJP Uvas. 
A ideia de implantar uma área de uvas de mesa surgiu em março de 2016, através de um amigo dos proprietários que tem produção juntamente com sua família em Petrolina. “Ele nos trouxe uma ideia bem diferente que seria implantar um manejo do Vale do São Francisco aqui na Serra, e deu muito certo”, coloca Otávio. 
Ao aproximar-se do parreiral as pessoas deslumbram-se com a quantidade e tamanho dos cachos de uva. É graças a muito trabalho, dedicação e acompanhamento técnico que os irmãos garantem essa qualidade e um número altíssimo de visitantes.  “Recebemos muitas visitas, pois é algo diferente, a poda, o manejo, e a limpeza da área chamam a atenção do público”, relata.

O cultivo das novas variedades representa um grande avanço para a viticultura, pois vai permitir uma redução nos custos de produção, com menos danos para a saúde do trabalhador e para o meio ambiente.

O projeto do parreiral foi realizado pela Emater e algumas mudas inclusive, vieram do Nordeste. Otávio relata que foi algo totalmente novo para eles, que apenas sabiam um pouco da cultura de uvas na Serra Gaúcha, mas nada comparado com as do Vale do São Francisco. Para que a iniciativa desse certo, eles contaram com ajuda de técnicos e receberam várias visitas dos produtores do Nordeste, dando dicas que facilitaram o trabalho.
Para iniciar, foi construída toda a estrutura, e devido ao seu alto custo quem a instalou foram os próprios proprietários, visando diminuir as despesas. Segundo Otávio, essa foi a maior dificuldade enfrentada por eles. A primeira safra foi colhida no ano passado e foi muito positiva. Segundo o produtor, 2019 também já está com ótimos resultados. 
São produzidas na área sete variedades: Moscato Alexandria, Rainha Itália, Núbia, Isis (variedade sem sementes), Benitaka, Vitória (sem sementes) e a Niagara Rosada que é a tradicional. O custo das uvas de mesa, o quilo, é em torno de R$ 7, e da comum R$ 4.
Em sua segunda safra, eles já dominam algumas questões sobre o cultivo, mas salientam que é preciso melhorar sempre e se adaptar às mudanças que surgem. Eles contam com o auxílio do técnico agrícola Edison Defaveri, que acompanhou e ainda acompanha todo o processo, dando as dicas necessárias para o cultivo. 
Para garantir um produto de maior qualidade, é necessário muito trabalho. Otávio coloca que o dia a dia é bastante corrido, ainda mais depois que é realizada a poda, pois todos os dias tem tarefas que precisam ser repassadas e verificadas. E como é uma uva fina de mesa, o manejo é bem delicado. 
Cuidam da área, Otávio e Gabriel que recebem a ajuda da mãe em alguns momentos. Otávio permanece o dia todo trabalhando no parreiral e seu irmão vai no entardecer, pois durante o dia fica em outro empreendimento da família. Além disso, na época da venda eles contam com um total de dez pessoas ajudando, durante a safra trabalham de segunda a segunda, o dia todo, de manhã à noite. 
O planejamento dos irmãos é expandir a área e plantar algumas variedades novas. “Buscamos melhorar cada vez mais, com alguns erros vamos aprendendo, aperfeiçoando para o próximo ano, para a próxima safra”, colocam. 
Na visita ao parreiral, as pessoas podem colher seus cachos de uva ou podem ser acompanhadas, momento em que os proprietários contam um pouco da história do parreiral e das variedades.

Acompanhamento técnico é importante

As tecnologias trazidas de Petrolina são muito avançadas e são realizadas buscando melhorar a qualidade da uva, do trabalho e o controle sanitário. São feitas praticamente as mesmas técnicas, começando com a formação de uma planta, a poda o raleio, entre outros processos. 
A poda é uma das coisas que mais chamam a atenção dos produtores locais, pois ela é muito diferente da que é realizada aqui na Serra. Ele explica que ela é conhecida como espinha de peixe; nela, se trabalha na base da planta com esporão e vara. “Deixamos o esporão para formar a vara para o próximo ano e a vara para trabalhar com a produtividade. É mais fácil para fazer os controles sanitários, ter uma melhor distribuição, garantir menores números de aplicação de fungicida e deixar a área mais arejada para ter menos doenças”, explica Defaveri. 
Outra diferenciação é a cobertura do parreiral, que garante que tenha menos doenças, pois ela protege muito mais a planta, diminuindo a aplicação de fungicida. “Hoje, ninguém cultiva sem utilizar defensivo, mas a cobertura é uma maneira de diminuir a aplicação”, coloca. 

Edison e Valber Defaveri, com Otávio (ao centro)

Na área, eles utilizam produtos preventivos que ativam a defesa da planta, procurando deixá-la bem equilibrada. Além disso, trabalham com uma tecnologia de controle e manejo, que requer a realização de raleio e desponta de cacho. “São detalhes que, pela própria mão de obra ou por não ter o conhecimento, o pessoal daqui não realiza”, explica. Porém, o padrão de qualidade de excelência garante uma melhor venda, valoriza o produto.  
A partir do ano que vem, segundo ele, a totalidade da produção será atingida, sendo que existem plantas que já estão numa produção acima da média. “Procuramos fazer no ano que vem um manejo diferenciado para deixar um menor número de cachos, derrubando os menores para conseguir ter a qualidade da uva”, destaca. 
O principal diferencial da área dos irmãos Poletto, para Edison, é a qualidade da uva, cachos com grãos uniformes e sem grãos verdes. A padronização é diferenciada devido às técnicas que são utilizadas.

Produtos Coda

Os produtos preventivos utilizados na área são da Coda que é uma empresa espanhola. E a empresa Potencialize, fundada por Edison Defaveri é representante da marca em todo o Rio Grande do Sul. O empresário conheceu o produto em Petrolina, há 25 anos, quando a empresa entrou no Brasil. Hoje, ela é distribuidora em 84 países
Na área de uva dos irmãos Poletto, trabalha-se com toda a nutrição Coda, além dos adubos químicos. Utilizam os produtos desde a etapa pós colheita no solo e via foliar. A Coda trabalha com todas as linhas, desde cereais, flores, entre outros. Cada cultura tem a recomendação dos técnicos que sempre prezam a importância do enraizamento. “Estamos fazendo um trabalho muito sério, porque o que queremos é fazer com que o agricultor tenha qualidade, agregada à produtividade. No momento que ele tiver isso, terá uma renda. E quando usar produtos de qualidade e tiver retorno, ele continuará usando. O que buscamos hoje é sempre trabalhar para que o produtor ganhe dinheiro e o produtor precisa estar satisfeito com o nosso trabalho”, coloca. 
Jovens como Otávio e Gabriel apostaram na agricultura, que para Edison é uma porta de entrada. “Buscamos que o jovem tenha qualidade, produtividade, para que o produto tenha um valor agregado melhor e no final do ano ter mais lucratividade”, conclui.

Equipe de trabalho utiliza produtos Coda, com assessoria da empresa Potencialize