Em meio a pandemia, Filó aguarda a retomada

Muito mais que uma atração turística, o Filó Italiano de Vila Flores traz aos que vivem esta experiência, momentos de

Muito mais que uma atração turística, o Filó Italiano de Vila Flores traz aos que vivem esta experiência, momentos de aprendizado, confraternização e alegria. Os descendentes de italianos que compõem o grupo dedicam-se para que todos aqueles que visitam o filó, jamais esqueçam de todos os momentos que ali viveram e que, mantenham viva a tradição.

O grupo começou reunindo-se timidamente, em busca de retornar às raízes. Num primeiro momento, o grupo possuía membros do coral municipal reunindo nas comunidades pessoas que gostariam de participar do Filó. Aos poucos, os turistas passaram a ter conhecimento destas reuniões e demonstraram o interesse em participar, mas como não havia um local fixo, ficava difícil de encontrar o grupo. Foi aí que o Filó, com ajuda da prefeitura, recebeu um espaço para que pudesse realizar as suas atividades.

Com comidas, músicas, histórias, piadas a tradição é mantida e passada para as mais diversas gerações. Hoje o grupo possui 26 integrantes voluntários das mais diversas idades. Por ser muito procurado, para 2020 a agenda estava cheia até o mês de dezembro. O que não se contava era que este ano seria totalmente diferente do que se estava acostumado, e devido a tão falada pandemia, o Filó teve que suspender suas atividades, afinal, boa parte do grupo pertence à faixa etária considerada de risco.

O Filó não pode morrer

“Nós fazemos o nosso Filó de coração e nesse momento estamos parados mas não é vontade nossa. Mas essa pandemia veio para parar tudo. E de agora em diante nós vamos ver como é eu nós vamos retomar. Estamos sendo muito procurados, não sabemos o que responder por telefone, por email porque querem que a gente volte, só que nós somos grupo de risco. Como é que nós vamos cantar de máscara? Como é que nós vamos sorrir, como é que nós vamos brincar com o nosso turista?”, lamenta dona Benedita Zandoná Ceccato, presidente do Filó.

Ainda de acordo com a presidente a retomada será um pouco difícil, mas que já estã sendo estudada uma maneira para as atividades retornem. “O Filó não pode morrer. É uma parte da cultura italiana que está em Vila Flores”, diz.

“Nós não estamos mais escondidos, nós somos agora vistos no mundo inteiro. E não param de nos procurar. Nada como entrar, como se diz, nas mídias de hoje. Estamos ali então para bem receber a todos. As pessoas que chegam até aqui, tem que voltar mais alegres do que quando chegaram. É esse o nosso objetivo, deixar as pessoas leves de corpo e de espírito. E a gente conseguiu até hoje”, finaliza dona Benedita.

Além das Fronteiras de Vila Flores

“Nem imaginávamos isso. No começo para nós parecia que íamos fazer um tempo e depois até ia parar, que não haveria interessse, mas na realidade foi diferente. Começaram procurar, gostar, muitas agências de turismo, muitos grupos voltam. Atualmente não só fazemos filó aqui, para o nosso estado, mas também para cidades mais distantes. Fazemos muito para Santa Catarina, Paraná também. Já vieram grupos da Itália, até do Canadá, que são imigrantes italianos que foram se instalar no Canadá e vieram fazer o filó. Também do Paraguai, da Argentina, e do Chile”, conta dona Alide Gallina Luzzatto, responsável pelo agendamento.

As atividades iniciaram em 2005, mas foi no ano seguinte, em 2006, que iniciou-se a procura pelas apresentações do grupo, do ‘boca a boca’, a agências de turismo que repassavam informações entre si. 

“Do início até hoje, a evolução foi muito grande. Por exemplo, agora, neste ano, até o dia 14 de março nós tínhamos Filó. E tínhamos agendado até dezembro. E ali na metade de março foi cancelado, não se fez mais nada. Mas já para o próximo ano, os grupos que cancelaram por causa da pandemia estão todos agendados e nós temos agenda agora até dezembro. A gente não imaginava essa procura tão grande, e mesmo agora durante essa pandemia, eu continuo atendendo por whatsapp e por telefone. Quando querem participar já deixam agendado para o próximo ano, tendo a esperança que tudo isso passe e volte a funcionar mesmo”, revela.

Quando as atividades são realizadas a noite, o turista é recebido a luz de lampiões. Mas há também uma versão do Filó realizada à tarde, no qual o público alvo são as crianças.“É um trabalho mais didático com a criança. A história é contada de uma maneira mais didática, mas que eles compreendam bem a história dos nossos imigrantes. Algumas procuram por uma noite, porque eles ficam então mais tempo aqui no município, ou nos municípios vizinhos, mas a maioria é somente a tarde. E tem grupos de terceira idade, muitos tem vindo de Caxias do Sul, Flores da Cunha, São Marcos, Canoas, Carlos Barbosa, vieram dessas cidades também para fazer o filó para a terceira idade a tarde. E não designamos filó a tarde chamamos de merendinha”, finaliza.

“O pouco de cada um, fazia o muito para todos”

“O Filó é encontro familiar, é alegria. Os imigrantes não o fizeram assim que chegaram por que não tinham estradas e por vezes eles se perdiam no mato se saiam a noite. Então eles demoraram para recomeçar o filó”, é o que nos conta dona Zélia Brandalise Fiori, uma das responsáveis pela recepção e também pela alimentação.

A imigração italiana para o Brasil, deu-se por motivos econômicos, para não passar fome e frio, os imigrantes deixavam suas terras e família na tentativa de recomeçar em um novo lugar. Em sua bagagem trouxeram sua tradição que é tão forte nas cidades que foram colonizadas por eles.

“Quem inventou o Filó não fomos nós, foram os nossos antepassados que já vieram da Itália e trouxeram esse costume. Lá eles se reuniam, geralmente no porão das casas, junto com os animais, porque na época de inverno eles levavam os animais para lá por que além de protege-los e abrigá-los contra as intempéries e dar-lhes comida, eles guardavam o esterco dos animais para fazer fogo, por que eles não tinham nem lenha. Então era uma pobreza muito grande, uma pobreza total. Como era muito frio eles faziam fogo e o mesmo fogo aquecia os animais e as pessoas. E assim eles vieram trazendo essa lembrança na bagagem deles, além de outras coisas”, conta dona Zélia.

Ao chegarem na Serra, ao decidirem retomar a tradição, eles combinavam de encontrar-se na casa de alguém, e várias famílias se reuniam, saíam cantando felizes para ir para o filó.  As músicas também serviam para espantar o medo dos animais.

“Era tudo diferente, tudo muito difícil de enfrentar essas dificuldades todas. Aí saíam cantando para que as outras famílias vissem que eles estavam passando, e se agruparem para assim ,irem  em grupo no filó. Então eles chegavam, levando um pouco de comida, cada um levava o que tinha e depois colocavam numa mesa e repartiam. O pouco de cada um fazia o muito para todos.  E assim eles colocavam então na mesa, e a família que os recebia muito alegre, muito feliz também. Os homens levavam a ferramenta que tinham, aí uma família tinha um martelo, a outra família tinha uma foice… e eles aproveitavam para se ajudar nos trabalhos também. As mulheres  se reuniam na cozinha enquanto faziam o brodo, bordavam, remendavam, costuravam… Era uma noite de festa, uma noite de alegria”, relata.

Arte, música, entretenimento, fé e tradição

Juntamente com lembranças e tradições, os imigrantes trouxeram também a sua fé.  Antes de todas as atividades, eles reuniam-se para professar a sua fé, agradecendo pelo seu dia e deixando diante e vale salientar que nunca a oração era esquecida, uma das preocupações deles era antes de começar, o filó antes de começar tudo era se reunir, e rezar era isso que eles faziam. Então eram noites alegres porque eles não tinham outro entretenimento, não tinha comunidade, não tinha salão, não tinha igreja, não tinha nada, eles tinham que encontrar uma maneira de se ajudar uns aos outros, então era uma noite que um encorajava o outro na verdade.