Onde os sinos falam

e contam os segundos do tempo e da vida…

Em muitas cidades mundo afora, pequenas ou grandes, antigas ou novas, os sinos ressoam de hora em hora nos campanários das igrejas ou das catedrais. Às vezes é difícil ouvi-los na agitação do trânsito das metrópoles, mas, nas localidades do interior, os sinos ainda podem ser ouvidos até mesmo a quilômetros.
Não há referência precisa so-bre a origem dos sinos, sendo frequentes as divergências entre autores e estudiosos da matéria. Os mais antigos exemplares conhecidos são de origem chinesa e datam do segundo milénio antes de Cristo, sendo muito escassos os documentos que permitam recuar mais no tempo. Outros autores indicam que eles existem desde o século V e foram de vasto uso na Idade Média. Eram particularmente usados nas comunidades monásti-cas para chamar os monges, que, durante o dia, se espalhavam por diversos locais dos mosteiros no cuidado de suas atividades, a fim de reuni-los para as orações na capela. Mais tarde, foi ficando comum ouvi-los também nas igrejas paroquiais, convidando o povo para a celebração da Eucaristia e para outros atos de piedade, como a oração do Ângelus, três vezes ao dia.
Não apenas as religiões cristãs, mas as religiões orientais também se utilizam dos sinos e inclusive dos gongos. O sino é o único instrumento que tem a sua utilidade voltada para o nome. Sino vem de sinal, de signos. Ele foi feito, justamente, para emitir sinais, para linguagem.
Para entender a língua dos sinos, o primeiro passo é prestar atenção no ritmo, que é o que determina se um toque é festivo ou triste. Além disso, os toques podem ser feitos com o sino parado, como as pancadas, causadas por um badalo em ação num único sino; ou com o sino em movimento – esses são os chamados dobres, que podem fazer com que o sino gire completamente em torno de seu eixo.
Se nas grandes cidades ca-da badalada indica apenas a proximidade da missa e raramente feita por sinos, mas por um sistema de alto-falantes, nos pequenos municípios existem toques para as mais variadas situações. Há toques específicos para avisar de falecimentos ou para alertar sobre tempestades. E as informações vêm em camadas: dependendo do toque é possível saber se quem morreu era homem, mulher, ainda criança e até se a pessoa ocupava cargos importantes no governo ou na igreja. 
Em muitos  municípios da região, os sinos dobram porque ainda têm muito a dizer.

Os sinos e a primeira forma de comunicação

Fagundes Varela, município pequeno, de 2.700 habitantes, possui em seu centro a Igreja Matriz, e nela estão os seus antigos sinos. Esses que foram e ainda são muito utilizados como meio de comunicação. Na época em que não existia rádio e televisão, como  as pessoas seriam comunicadas a respeito de um acontecimento? Era através dos sinos, que os moradores ficavam sabendo o horário das celebrações, falecimentos e acontecimentos diversos. Pode-se dizer, que além de função religiosa os sinos atuavam como um serviço social. 

Vista aérea da Igreja Matriz de Fagundes Varela

Residente em Fagundes, Neri Mattiuz, professor, historiador, radialista, que inclusive fez parte da Comissão Emancipacionista da cidade, foi durante décadas, o sineiro. Ele afirma que “a comunicação sempre fez parte da vida do ser humano, por isso é um ser social.  Desde os homens das cavernas havia comunicação através de ruídos, depois veio também a época dos índios que se comunicavam através de fogo e fumaça, de lugares distantes. E assim, foi seguindo. Vieram os correios e se expandiram, como são atualmente. E em cidades pequenas como Fagundes Varela, a primeira comunicação foi a dos sinos, eles que avisavam o que acontecia”. 
No falecimento de alguma pessoa, as badaladas eram específicas pelo gênero. “Se era homem badalava por 15 minutos, se era mulher reduzia pela metade de 7 a 8 minutos e se era criança eram de três a quatro minutos”, afirma Mattiuz. Com o tempo, sistemas de alto-falantes passaram a auxiliar nas informações. Neri conta que eles foram instalados na igreja em 1950. Sendo assim, juntamente com os sinos, comunicavam os falecimentos: “Depois do toque dos sinos, era comunicado o falecimento da pessoa e o horário de sepultamento. Isso também marcou e ainda marca muito em Fagundes, pois ainda o serviço é prestado, hoje com o apoio de Leandro Rigo”, relata Neri. 

Um dos sinos mais antigos do município está na capela de São Pedro. Ele mantém a estrutura de madeira que o sustenta.

Ele complementa que mesmo se tivesse algum incêndio, por exemplo, os sinos badalavam e as pessoas se alertavam de que estava acontecendo algo de diferente na cidade. 
Para que ninguém perdesse o horário da missa, antes de seu início, eram tocadas badaladas mais rápidas, que segundo Neri, eram a primeira chamada. E, depois de uns 15 minutos, eram apenas uns badalos, e com este som, todos sabiam que já ia começar a celebração. Outro uso religioso dos sinos era para chamar as crianças para a catequese aos domingos à tarde. 
Em algumas datas, como a de finados, o sino era tocado também durante à noite. Já nas procissões de velórios até o cemitério, o sino tocava em todo o trajeto. Até o final dos anos 1990, o município não contava com Capela Mortuária, portanto, o translado do corpo saia da Igreja Matriz até o Cemitério, num percurso de cerca de 700 metros. Neri explica que naquela época “depois da celebração, saiam a pé até o cemitério e, na igreja, alguém ficava puxando o sino, e assim se fazia também nas capelas do interior. Quem tocava era o especialista do toque do sino, que fazia com que o som fosse fúnebre, com notas de tristeza. Eles é que sabiam fazer e até hoje o  fazem”. 

O Campanário da comunidade de Nossa Senhora do Rosário, interior de Fagundes, é tombado como patrimônio histórico e cultural do município. Ele preserva as suas características originais e está instalado aos fundos da Capela.

Nem tudo ainda é artesanal

Hoje, Fagundes ainda tem parte do sistema manual e outro automatizado. Um sistema de som, instalado há 40 anos em Fagundes Varela, permite que os quatro sinos façam notas de uma ave maria em três diferentes horários: 6h, 12h e 18h. “Ele dá aquelas badaladas marcando a música e em seguida desliga os marteletes e começa a tocar. E funciona num sistema de chaves com mercúrio, um material líquido. Quando o sino sobe, o líquido desce e desliga… Sobe e liga, é programado”, destaca Neri Mattiuz. 
 

Os sinos e a polêmica
A tradição de toque dos sinos já precisou ser suspensa por um curto período de tempo. O historiador Argel Rigo, conta que, às vezes, foi cogitado suspender o serviço dos três toques, às 6h, 12h e 18h, como também o toque dos sinos e o aviso nos alto-falantes de falecimentos, que para Argel é um ato de homenagem e reconhecimento ao falecido. A solicitação pela suspensão partiu de um visitante que fez o pedido ao Padre, entretanto, “a comunidade não aceitou suspender essa tradição, que está enraizada no município. Foram suspensos por um tempo, mas a comunidade reivindicou”, coloca Argel.

Argel e Neri guardam importantes histórias da região. Ao fundo, o altar da Igreja Matriz de Fagundes Varela

A interação da comunidade

Além do papel religioso, os alto-falantes (instalados juntos aos sinos) eram utilizados para divertir a população. Neri recorda que, como ainda não existia rádio, todas as novidades musicais vinham de São Paulo, por caminhoneiros que viajavam até o antigo Distrito (hoje município de Fagundes Varela). Quando retornavam de suas viagens, traziam consigo discos de duas faces, 78 rotações, e cada morador da cidade que os adquiria fazia uma doação destes discos que ficavam arquivados na paróquia. Assim, durante as tardes de domingo, tocavam nos alto-falantes da igreja as músicas novas. Neri passou muitos sábados e domingos animando a população, colocando mú-sica para os namorados que faziam os pedidos, pessoas que estavam de aniversário, e assim a praça  estava sempre lotada de jovens. “Desde os 18 anos eu lidava com serviços de alto-falante, diziam que eu era a ‘voz de Fagundes Varela’”, recorda Mattiuz. Até pedidos de namoro podiam ser ouvidos do alto da torre da Igreja Matriz.
O alto-falante, segundo Neri, foi algo que marcou muito a ‘vila’ de Fagundes. Depois do surgimento das emissoras de rádio na região, este espaço dos alto-falantes e, anteriormente ainda dos sinos foi tomado. Neri virou também locutor de rádio. Até hoje apresenta seus programas Veranense Show e Meu Sítio Meu Paraíso, na Tua Rádio Veranense. Os sinos ainda tocam e continuam comunicando missas e falecimentos. 

Os sinos e o tempo

Os sinos da Igreja Matriz de Veranópolis têm a tarefa de controlar o tempo na cidade. É do alto da torre da Igreja Matriz, que quem passa pela Terra da Longevidade e Berço Nacional da Maçã confere os ponteiros ajustados com a vida dos veranenses. Eles badalam no completar das horas (conforme a hora é também o número de badaladas) e uma vez na meia hora. 

Sino da Igreja Matriz de 
Veranópolis é datado
de 1889 e teria sido
confeccionado em Porto Alegre

Belmino Tonatto é hoje o dono do tempo de Veranópolis. Ele que sempre atuou na Igreja, tem um papel importante no que diz respeito à manutenção e cuidados necessários dos sinos e do relógio. Ele recorda como os sinos eram usados antigamente: “Numa época, eram tocadas pelos sinos as Ave Marias, às 6h, às 12h e às 18h. Quando falecia também era tocado o sino, se era homem, eram três batidas, mulher duas e criança uma”. Isso, porque os velórios na cidade também eram na Igreja Matriz. 

Segundo Tonatto, o Frei Antoninho Pasqualon sugeriu construir a Capela Mortuária. Com ela erguida, há cerca de 30 anos, foi abandonada a tradição de tocar o sino.  Hoje, a função dos três sinos que ficam na torre da Igreja é alertar a passagem das horas, porém são necessários cuidados e manutenção para manter o bom funcionamento.
Belmino tem um envolvimento muito forte com a igreja. Ele auxilia na animação das celebrações, e desde 10 de fevereiro de 1988 é responsável pelo relógio. Além disso, cuida da manutenção da Igreja Matriz, troca de lâmpadas, som, entre outros. Fez todos estes serviços gratuitamente até 1999, quando começou a receber uma pequena parcela mensal. 
A tarefa de Belmino não é nada fácil. Ele precisa subir mais de 90 degraus a cada seis dias para ‘dar corda’ no relógio, caso contrário ele para de funcionar. “O mecanismo dos sinos e do relógio é manual, a corda, ao ligar o motor, entra em ação. Uma correia puxa os pesos, de 96kg cada um, que levantam até em cima. Caso não dou corda, o relógio literalmente para. Muitas vezes me telefonam e dizem: ‘olha que o relógio está parado’. Daí lá vou eu, verificar o problema”, relata. 
Em uma das torres, estão dois relógios que funcionam pelo mesmo eixo.  “Às vezes, dá problema ou se atrasa, ou adianta, então preciso subir e acertar”, afirma. Ele tem uma coleção de histórias inusitadas em que os problemas do relógio foram facilmente percebidos pela população: “tempo atrás quebrou uns pinos do controlador das batidas. Com furadeiras e brocas consegui arrumar, mas, de repente, estourou um pino do centro e começou a bater, descontroladamente, até que terminou toda a corda”, recorda, com gargalhadas. 

Belmino cuida das engrenagens do relógio, responsáveis pelo badalar dos sinos

 

Os problemas sempre são resolvidos, mas claro que é preciso subir aquela enorme escadaria com muita atenção: “uma parte é boa, mas em outras, os degraus estão um pouco comprometidos, tem que cuidar para não cair”, afirma. Ao longo dos 30 anos que exerce essa função, Belmino subiu os 90 degraus cerca de duas mil vezes. 
Ele afirma que seu trabalho requer bastante responsabilidade, cuidado e domínio. Ao perguntarmos a ele se já possui algum substituto, ele afirma que já perguntou para vários jovens, mas ninguém demonstrou interesse. Seu amor por essa tarefa é muito grande, e isso é muito perceptível: “Graças a Deus, eu gosto do que faço e faço com boa vontade. Vejo que a maioria das pessoas que passam na praça olham o relógio da igreja e não o eletrônico”, diz ele, orgulhoso. Graças a Belmino, a população de Veranópolis pode passar no centro da cidade, verificar a hora e acertar seu relógio, pois, com muito amor, Tonatto cronometra os segundos para ver se o relógio realmente está correto. 

Ele sobe mais de 90 degraus da torre para fazer a manutenção

O ‘tempo’ parou por 15 anos

Por cerca de 15 anos, o relógio da torre de Veranópolis esteve parado, e o responsável para o seu retorno foi o mecânico Lídio Lusa. Poucas são as pessoas que têm conhe-cimento técnico com relógios como o da Igreja da cidade. Até para outras cidades ele foi enviado para o conserto, mas sem sucesso. Ao relembrar da história, Lusa diz que pediu para o Padre Armandinho, que era o pároco, se não havia mais conserto para o relógio voltar a funcionar, a resposta foi de que não tinha mais como arrumar. Mas o insistente Lídio retrucou à época: “Se fizeram o relógio, será que não tem conserto? Se há algo estragado é só fazer igual”, empolgado, disse. Depois disso, pediu para olhar o relógio e disse ao padre, “e se eu  o consertar?” e o padre respondeu – “Daí você fará um bem para o povo!”. 

Lídio Lusa dedicou muito trabalho para o retorno do funcionamento do relógio

O relógio foi feito em 1905, em Veranópolis, por um homem conhecido como “Girardi”. De acordo com Lídio, no início era preciso dar corda a cada três dias, manual, com uma manivela. Mas ele adaptou um motor, para diminuir este trabalho manual. Nes-se mesmo conserto, Lídio garantiu que o relógio durasse quase sete dias, sem precisar dar corda. “Eu retirei uma batida, fiz umas peças, transformei ele, e em vez de bater duas vezes, como era antes, agora bate apenas uma”, afirma Lídio. Sobre essa reforma, ele relata que teve muito trabalho, foi preciso calcular, fazer e refazer. Ao perguntar para Lídio como aprendeu tudo isso, ele responde: “boa vontade”. Começou, com 12 anos, a trabalhar na ferraria com seu pai, com uma mar-reta de 14kg, que ainda guarda com muito carinho. E, depois disso, seguiu aprendendo cada vez mais. Na história de vida de Lídio, digamos que o relógio da Matriz ocupa capítulos importantes, sendo que ao entrar em sua casa é perceptível o belo quadro que tem junto com o amado relógio. Muitas foram as vezes que, com a ajuda de amigos, Lídio subiu na torre para consertar o relógio. 

O relógio da torre da Igreja visto pelo outro lado

Por volta de 1982, após muitos consertos, Lídio percebeu que as peças estavam muito gastas e precisavam ser substituídas. Então, levou o relógio que tem uma estrutura gigante e bem rudimentar, com muitas engrenagens feitas à mão, para sua casa e o reformou completamente. Ele trocou buchas, colocou rolamentos e, depois disso, Belmino começou a dar corda. Lídio destaca que após o conserto, surgiram alguns problemas, mas que na maioria deles, Belmino consegue resolver. Caso contrário, leva a peça para Lídio, que com 86 anos, consegue arrumar, mesmo que com dificuldades por causa da tremedeira nas mãos. “Tem que ter o dom, se concentrar, para mexer no relógio e não o descontrolar”. Somente com mãos habilidosas e muita calma é que conseguimos controlar o tempo – não será diferente com um relógio, ainda mais o da cidade. Além do relógio de Veranópolis, Lídio consertou os aparelhos de Vacaria e o de Cotiporã.

A linguagem dos sinos

Para a Igreja Católica, os sinos têm grande importância religiosa, uma simbologia e linguagem repassada de geração em geração. O pároco de Veranópolis, Frei Darci Vazzata, explica quais são e foram as utilidades. Segundo ele, hoje, o sino tem duas utilidades, uma é a função do toque que indica os horários, sinal de hora e meia hora. A segunda função, que é religiosa, é o toque antes das missas. O primeiro deles, segundo o pároco, é um convite para participar da celebração litúrgica, religiosa. Enquanto o segundo toque tem como função avisar que está iniciando a celebração. “Quem ainda está disperso, às voltas, tem o sinal de que é tempo de se recolher para tomar parte da assembleia celebrante”, afirma ele. 

Pároco de Veranópolis, Frei Darci Vazzata

Além desses, segundo ele, existem toques específicos, em missas de despedidas. “Existem igrejas que ainda hoje, tocam o sino no início da missa, na chegada do corpo, aonde é dado o sinal de que se está vivendo um momento de celebração de corpo presente. E um toque fúnebre, também se faz na saída do corpo, mostrando que se está em luto”, frisa. 
O Sacerdote complementa: “O toque do sino é o convite que Deus e Jesus Cristo nos fazem para participarmos da vida da comunidade e celebrarmos a nossa fé em conjunto, esse é o sentido do toque do sino”.
Por exemplo, tinham lugares que quando ocorria um incêndio, algo diferente, tocava-se o sino para alertar a população. 
Outra antiga tradição das igrejas eram os 12 toques dos sinos ao meio-dia, em algumas regiões, todos eram avisados do horário pelo toque dos sinos. Às 18h, o momento da Oração da Ave Maria. E, em muitos lugares, segundo Darci, se mantinha a tradição de fazer no alto-falante uma prece, nesse horário, mas antes tocava o sino. “Em Flores da Cunha, hoje, o toque dos sinos, que são muito antigos, quando é festivo é um toque e ainda tem o toque da hora, o da meia hora, é tudo programado de forma eletrônica, é muito interessante. Se há algum falecimento, ainda é anunciado pelos alto-falantes da Igreja. A cidade tem três rádios, mas o que conta ainda é o anúncio feito pelos alto-falantes da torre, porque abrange todo o perímetro urbano, até o  interior. Um toque do sino, música que pede silêncio, daí alerta as pessoas, os carros param, pessoas vão à janela e escutam o anúncio de falecimento. Nessa cidade, é muito interessante esta tradição que se mantém”, relata. 
O Frei salienta que, em Veranópolis, o sino tem as funções do toque na hora e meia hora e a outra no convite para as missas. Ele reafirma que não há o toque dos sinos nos falecimentos, pois os corpos não são mais velados na igreja. Mas salienta que nas capelas do interior ainda se mantem o toque fúnebre na entrada do corpo, que convida para a missa e na saída até o cemitério. 

Curiosidades

  • No século 18, quase todos os sineiros eram escravos, o que fez com que os toques dos sinos tivessem grande influência de ritmos africanos. Segundo o dossiê do Iphan, uma prova disso é que muitos dos nomes de toques que existem até hoje designam também ritmos de terreiros de candomblé e na capoeira. “Há referência de que capoeiras e escravos se escondiam nas torres das igrejas, onde ninguém ousava subir. Tanto hoje como outrora, os espaços das torres são espaços de liberdade”, diz o estudo.
  •  Toque das ave-marias. Prática puramente católica, consiste na recitação de orações ao som dos sinos, em três momentos muito importantes na vida das comunidades, com os sinos a desempenharem relevante papel de aviso: o toque da manhã, designado toque das Ave Marias; o do meio-dia correspondia ao Angelus; e o do fim da tarde, designado toque das Trindades. Eram todos iguais e consistiam em três grupos de três badaladas simples e compassadas no sino grande do templo.
  • O Ofício de Sineiro, prática tradicional em cidades de Minas Gerais, vinculada ao ato de tocar os sinos das igrejas católicas, ganhou o registro de Patrimônio Cultural Imaterial em 2009. A atividade tem importância fundamental na produção e reprodução dos toques que caracterizam e diferenciam territórios e comunidades, contribuindo para a permanência da prática de tocar sino nas cidades mineiras como uma forma de comunicação e identidade. Tendo como referência as cidades de São João Del Rei, Ouro Preto, Mariana, Catas Altas, Congonhas do Campo, Diamantina, Sabará, Serro e Tiradentes, em Minas Gerais, é uma prática tradicional para anunciar rituais e celebrações religiosas, atos fúnebres e marcação das horas, entre outras comunicações de interesse coletivo. 

 

Reportagem: Daniela Farenzena Affonso e Leandro Galante
Colaboração: Francine Ghiggi
Revisão: Angela Giaretta Reali