Saúde: A pandemia sete meses depois

No último dia 10 de outubro, completou-se sete meses desde que a pandemia foi declarada no Rio Grande do Sul,

No último dia 10 de outubro, completou-se sete meses desde que a pandemia foi declarada no Rio Grande do Sul, quando o primeiro caso foi registrado (10/03). O paciente de 60 anos, natural da cidade de Campo Bom, havia retornado no dia 23 de fevereiro de uma viagem para a Itália, país considerado um dos epicentros da doença. No dia 25 do mês de março, o estado registrou a primeira morte, uma mulher de 91 anos, em Porto Alegre.

Ao todo, o território gaúcho já contabiliza, um pouco mais de 214 mil pessoas que já foram contaminadas pelo novo coronavírus e um número superior a 5.100 vítimas fatais. Dos 497 municípios gaúchos apenas as cidades de Cerro Branco e Garruchos não apresentaram casos da doença.

Na Serra Gaúcha, o número de casos já ultrapassou a casa dos 10 mil. Veranópolis e microrregião tiveram o primeiro caso registrado em 11 de abril, o paciente de 63 anos, havia retornado recentemente de uma viagem à Bahia, e o mesmo ao sentir os primeiros sintomas procedeu com o isolamento, buscando auxílio médico apenas quando apresentou sinais respiratórios mais graves, sendo assim internado no Hospital São Peregrino Lazziozi.

Preparativos para a chegada da doença na microrregião

Rogério Franklin da Silva, diretor geral do Hospital São Peregrino Lazziozi, conta que a instituição já iniciou os procedimentos necessários para se preparar ainda no mês de março, quando saíram as primeiras notícias da chegada do novo coronavírus no Brasil.

“Montamos um comitê de crise interno, liderado pela direção juntamente com o corpo clínico e Secretaria de Saúde, no qual montamos um protocolo de atendimento dos pacientes, desde  a acessibilidade dos pacientes suspeitos, que eram encaminhados ao posto sentinela, e os mais suspeitos ou confirmados – já que naquele início era uma dificuldade maior para a realização dos testes– eram internados no hospital”, revela Rogério.

O diretor conta que o corpo clínico foi muito parceiro durante esse período, e que a cidade se preparou, em seu planejamento, desde os piores aos melhores cenários, para assim saberem como proceder, caso a chegada da COVID-19 se mostrasse como em outras cidades do Brasil.

“Fizemos treinamento, compra dos EPIs necessários, mobilizamos a população – que se integrou bastante às campanhas. Também tivemos empresas que nos fizeram doações importantes de carro anestésico, respiradores, analisadores de gases respiratórios, todos os equipamentos necessários, que nós tínhamos, mas não para uma demanda de proporções grandes como essa pandemia”, conta.

O hospital buscou também, planejar-se quanto ao espaço físico, caso houvesse lotação das UTIs existentes. Hoje, a instituição dispõe de um total de 63 leitos (camas), sendo 40 deles destinados a casos de coronavírus mas o registro máximo de pacientes internados ao mesmo tempo em virtude da COVID-19 foi de 9. Se necessário, também foi montada uma tenda em frente ao hospital, além da unidade sentinela para realizar atendimentos, mas a mesma nem chegou a ser utilizada. “Também fizemos o uso, por decisão clínica, da cloroquina. E vimos que tivemos um resultado positivo”, diz.

Além disso, o hospital recebeu por parte de alguns parlamentares verbas a serem destinadas ao COVID. “Muito desse valor foi destinado aos EPIs, álcool em gel e medicamentos usados para o tratamento da doença, que, com o aumento da procura por parte da população, tiveram um aumento considerável de preço”, diz.

“Se por um lado houve aumento do custo, por outro diminuíram outras internações, cirurgias, e outros atendimentos. A nossa preocupação era muito grande. Mas logo essas doações vieram para ajudar e verbas, que de certa forma já viriam para a saúde, mas que acabaram por ser antecipadas em virtude da pandemia”, conta Rogério.

Rogério se mostra otimista quanto aos próximos meses, se mantiverem os cuidados e a consciência de que ainda é necessário se realizar o distanciamento social, até quando sair a vacinação para a doença. “Sabemos que é incômodo o uso da mesma, ainda mais nesses meses de calor. Mas temos visto que em alguns países onde houve um ‘relaxamento’ com os cuidados, alguns deles já tem sofrido com o que tem sido chamado de segunda onda. Por isso é importante que a gente não se descuide”, finaliza.
 

“A união fez a força”

O pânico gerado em torno da doença e a escassez de informações, fez com que em um primeiro momento houvesse pânico entre as pessoas de todo o país. Para Vanessa Calioni Bordignon, secretária da Saúde do município, parecia um cenário de início de guerra. “As primeiras informações ainda eram muito desencontradas ali pelo mês de março, quando tudo começou, e isso fez com que a população e até os profissionais da saúde tivessem medo do que estava por vir”, diz.

A partir daí, a formação do Comitê Municipal com profissionais representantes das mais diversas entidades como o Hospital, Segurança Pública, Bombeiros entre outros, fizeram o diferencial na primeira etapa. Canais de comunicação para tira dúvidas, denúncias e escalas de fiscalização além de criação de um sistema para contabilização de casos e monitoramento dos mesmos se tornaram referência para a região.

No início, muitas pessoas procuravam as unidades de atendimento movidos pelo medo de contrair a doença. “Buscamos sempre manter o equilíbrio, avaliando a situação da microrregião. Houveram erros, afinal era uma situação totalmente nova, mas também tivemos muitos acertos. A ponto de atualmente, termos reduzido a carga horária dos atendimentos na unidade sentinela, antes era de segunda a segunda. Hoje já não há expediente aos fins de semana”, conta Vanessa.

“Com o passar dos dias, os protocolos foram sendo atualizados, o sistema de testagem foi aprimorado para facilitar os atendimentos. Criamos o monitoramento dos casos que não chegaram a ser internados, entrando em contato com os infectados e famílias a cada 48 horas. Também criamos o programa ‘Melhor em Casa’, no qual entramos em contato com os idosos e fazemos todo o trabalho de orientação”, revela Mariel Schmitt Marcio, enfermeira da Vigilância Epidemiológica.

Mariel também conta que, na contramão de outras cidades, os casos de agentes de saúde contaminados foram mínimos, e que a infecção se deu pelo contato com familiares, e não com pacientes.

Tanto Vanessa, quanto a enfermeira Mariel alertam que, mesmo com a “calmaria” em relação ao número de casos que se pôde observar nos últimos 15 dias, ainda sim é necessário continuar com os cuidados preventivos, pois o vírus ainda continua em circulação. “Nos últimos 15 dias do mês de setembro, foram contabilizados 15 pacientes positivos, o que em média seria um por dia. Mas só na última semana, como as pessoas se sentiram mais ‘relaxadas’ e tornaram a realizar aglomerações, só na última semana 21 casos foram positivados, sendo que 4 são só da manhã dessa segunda-feira (19). É importante que as pessoas lembrem que ainda é necessário se cuidar, não estamos impedindo as pessoas de saírem, porque não é nossa intenção, mas pedimos que sejam prudentes”, finaliza a enfermeira Mariel.