Demissões em queda: Os impactos da pandemia na microrregião

Aproximadamente 7,2 milhões de brasileiros perderam o emprego entre os meses de março e julho de 2020, de acordo com

Aproximadamente 7,2 milhões de brasileiros perderam o emprego entre os meses de março e julho de 2020, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, através da Pnad Contínua). Mais de 70% desse total pertence aos trabalhadores informais. Desde o começo da pandemia as vagas para trabalhadores informais também estão fechando, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), esse é o maior número para o período desde 2010. Os salários também diminuíram, no mês de maio, os trabalhadores receberam apenas 82% do que recebiam habitualmente.

De acordo com o último boletim do Caged, 249.388 vagas com carteira assinada foram abertas em agosto. Foram contratados 1,239 milhão de formais e demitidos 990 mil. Porém, o número de demissões superou o de contratações em 849.387 somente nos oito primeiros meses do ano. Vale lembrar que as pesquisas têm metodologias diferentes: enquanto o Caged considera só os empregos com com carteira, por meio dos dados que as empresas enviam ao governo, a Pnad Contínua faz amostra de domicílios com dados de vagas formais e informais, domésticos, empregadores, entre outros.

Em conferência virtual da Cúpula da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos realizada nno último dia 21 de outubro, o ministro da economia Paulo Guedes disse que o impacto da pandemia do coronavírus no mercado de empregos conseguiu ser amenizado. Na ocasião, ele citou o Programa Emergencial de Manutenção de Emprego e Renda, além dos números anteriormente divulgados pelo Caged. Vale a pena citar que Guedes se baseou apenas nos postos formais e não citou as consequências no mercado informal brasileiro.

O ministro chegou a comparar os dados com os dos Estados Unidos, afirmando que no mesmo período nos EUA foram demitidos 33 milhões de trabalhadores, enquanto no Brasil 11 milhões de empregos, digitalmente registados pelo sistema de proteção do país, e que apenas foram perdidos um milhão de vínculos empregatícios. Ele também acrescentou em sua fala que no mês de agosto, 250 mil empregos haviam sido recuperados.

Os impactos na microrregião

Devido aos decretos de isolamento no indício da pandemia, muitos serviços também deixaram de ser prestados, ou tiveram funcionamento em horário parcial. Esse foi o caso da Agência do Sine em Veranópolis, que foi a única que permaneceu em funcionamento durante esse período em todo o estado.

Maíra Faccio, Coordenadora da Agência do Sine

“A maioria das agências funcionam sob responsabilidade do governo estadual, e como a nossa agência trabalha em convênio com a prefeitura, nós cumpríamos as determinações da prefeitura para organizar o nosso trabalho”, comenta Maíra Faccio, coordenadora da Agência do Sine em Veranópolis.

Maíra revela que no mês de março a agência identificou um crescimento nas demissões, que são medidas pela agência a partir do momento em que o trabalhador busca por dar entrada no seguro-desemprego. A coordenadora diz que o crescimento foi bem acima da média que geralmente eram registradas pela agência, que varia entre 90 a 110 por mês.

“A agência teve conhecimento que algumas empresas estavam querendo reduzir o número de funcionários pelo fato da pandemia ter começado a pandemia, então como era algo incerto, manter os funcionários poderia se tornar um problema para a empresa no futuro. Até agora os meses de abril e maio foram os que houve maior quantidade de demissões, a maior parte delas por parte da indústria. O comércio não teve um número significativo. Abril saiu na frente com 178 encaminhamentos de seguro e em maio foram 214, no total geral da região, contando com trabalhadores de Cotiporã e Fagundes Varela”, revela.

A coordenadora também conta que, por ser a única agência em funcionamento, pessoas de outras cidades também buscavam por atendimento aqui. “Dentro desses 214 encaminhamentos em maio, 160 eram demissões da cidade e 18 de pessoas que moram aqui mas trabalham em municípios vizinhos, ou seja um total de desempregados de 178 só em Veranópolis, os demais vieram de Cotiporã, Fagundes, Vila Flores e até de Bento Gonçalves”, diz.

Nos meses de junho e julho iniciou o processo de estabilidade. Ao mesmo tempo em que as demissões diminuíram, as ofertas de emprego voltaram a abrir. Empresas como Rometal, MGA e Ipacol, que apresentaram um número considerável de demissões em comparação às demais, passaram a recontratar. Atualmente, a agência do Sine já possui um pouco mais de 140 vagas ofertadas. De acordo com Maíra, a redução de pedidos de encaminhamento de segura reduziu em 25%.

“O movimento aqui na agência tem retornado a uma ‘normalidade’. Até porque muitas dessas pessoas que foram demitidas, tiveram direito a 4 ou 5 parcelas do seguro, então já estão entrando nos últimos meses do benefício, e já buscam retornar ao mercado de trabalho”, comenta Maíra.

Outro movimento que tem sido observado é a chegada de pessoas provenientes de outras cidades e até de fora do estado que tem buscado novas oportunidades em Veranópolis.

“Nós temos observado esse movimento nos últimos meses. Muitos deles pessoas de fora do Rio Grande do Sul, que tem parentes ou conhecido aqui e vieram morar na cidade. Então aumentou a procura por nossos serviços. Há algumas vagas que precisam de alguns requisitos específicos, mas também temos conseguido encaminhar pessoas, encaixando-as para que tenham a oportunidade de aprender e começar uma nova ocupação”, finaliza.

Retomada do aquecimento do mercado

Leocride Bataglion, proprietário da B & B móveis, conta que apesar do final do mês de março ter sido o período mais complicado enfrentado no Brasil, o fato da empresa lidar diretamente com exportações, fez com que já se tivesse informações de como proceder diante do que estava por vir.

“Nossos principais clientes são da Europa, e em função da quarentena lá, as compras e  novos pedidos foram suspensos. Imediatamente tomamos a decisão de enxugar tudo o que dava. Em abril realizamos algumas demissões, em torno de 16. Não tínhamos uma noção exata do que poderia acontecer, mas não imaginava que seria tão rápida a evolução do quadro”, conta.

Leocride Bataglion

A empresa possuía 80 funcionários, e teve o quadro reduzido para 64 no mês de maio. Para se adequar à realidade, a carga horária foi reduzida, alguns colaboradores entraram em férias e também houve adesão ao plano emergencial do governo federal.

Apesar do período de instabilidade, logo a B & B iniciou o período de retomada, e as expectativas para o resto do ano tem sido muito boas. “No início, não se tinham informações muito claras de como o mercado se comportaria, e isto gerou uma forte insegurança. Mas logo as coisas foram clareando, pois se viu que não era todo o pavor que a mídia nacional divulgava”, diz Bataglion.

“Já em junho tivemos o retorno dos pedidos, e no mês de julho voltamos a contratar. Hoje estamos com 90 colaboradores, contratamos 26 com possibilidades de contratar mais. Como atuamos quase que 100 por cento nas exportações, o mercado está aquecido com possibilidades de novos negócios consequentemente vamos precisar de mais mão de obra, pois tivemos um aumento considerável de pedidos. As expectativas são muito boas, o que preocupa é a falta da matéria prima estamos com planos de aumento da nossa capacidade produtiva e consequentemente aumento de mão de obra que é outro problema. Estamos muito otimistas tanto para o restante de 2020 e para 2021”, finaliza.

“As dificuldades não foram poucas, mas felizmente estamos de pé”

Para Jonaldo dos Santos, supervisor de produção da Trudel Implementos Rodoviários, localizada em Monte Bérico, que atua há 7 anos na fabricação de implementos rodoviários e terceirização de soldas, o início da pandemia foi visto como algo que seria passageira, mas que com o passar dos sias, se pôde ter a verdadeira dimensão de como as coisas andariam.

“Antes da pandemia, tínhamos em nossa equipe 18 funcionários, e as demandas iam bem. Mas com o passar dos dias, foram diminuindo as vendas e serviços, pois nossos principais fornecedores também pararam. Nos primeiros meses foi necessário a diminuição do quadro de funcionários, alguns tivemos que dar férias, e alguns tiveram de passar pelo processo de demissão”, conta Jonaldo.

Jonaldo dos Santos

Outras medidas estabelecidas foi o modelo de home-office do setor administrativo, e a adesão aos programas de auxílio do governo, uso de máscaras, medição de temperatura e maior cuidado com a higienização. A empresa começou a recuperar-se no início de setembro, com a volta de pedidos de venda. Também foi a realizada a contratação de novos funcionários, inclusive alguns que haviam sido desligados por conta da pandemia.

“O mercado ainda não retornou a andar como era o esperado, ainda sofremos muito com a falta de matéria prima. Recontratamos dois funcionários, contratamos outro e já vemos a necessidade de novas contratações, graças à Deus. Nossa expectativa se normalize a demanda de materiais e que possamos encerrar o ano com saúde, e com uma projeção de faturamento cumprindo com as metas e compromissos, assim terminarem os o ano com a sensação de dever cumprido, pois muitos se desesperam frente as dificuldades, que não foram poucas, mas felizmente estamos de pé”, finaliza.