Especial: Como as relações entre pais e filhos mudaram com o tempo

Podem passar os anos, as gerações, mas o carinho e amor são sempre os mesmos! O que muda, é a forma como pais e filhos se comunicam, as cobranças e a forma de lidar com situações. A nossa reportagem foi entender melhor essa transformação.

Neste mês, a reportagem d’O Estafeta teve o prazer de estar com uma grande família em um dos momentos mais tradicionais e imprescindíveis da semana: o café da tarde do domingo. Em pouco tempo de conversa, foi possível perceber como a figura de um pai e seus conselhos estão sempre presentes e que são eles que orientam os caminhos que seguimos ao longo da vida.

Seu Italino Picetti e sua esposa Lourdes, ambos com 80 anos, contam orgulhosos, com um largo sorriso no rosto: temos nove filhos, 14 netos e quatro bisnetos. Os ensinamentos que foram passados pelo pai de Italino, ele passou aos filhos, que também passaram aos netos de Italino; e agora, os netos e netas passam para a 4ª geração da família: os bisnetos. 

Em uma grande roda de conversa na casa de Italino e Lourdes, em Monte Bérico, com as quatro gerações presentes, foram elencadas três palavras que resumem a família: gratidão, superação e fé. A última delas, para Italino, é o ensinamento fundamental que seus pais deixaram: “desde que éramos pequeninhos, enquanto a mãe fazia a polenta de manhã, nos ensinava a rezar. E à noite, depois da janta, meu pai reunia todos na mesa e cantava: ‘viva Jesus, viva Maria, nossa Mãe querida’. E quantas vezes o meu vô me ensinou a rezar! Eu era um gurizinho, mas ainda lembro”, recorda Picetti. Lourdes também lembra que a principal coisa que aprendeu de seu pai foi “fazer o bem, sempre”.

O orgulho se estampa no rosto de Italino ao perceber que seus passos foram seguidos: “são todos bem educados, me respeitam e eu os respeito. Um de meus netos, o Lucas, quando me abraça, não me chama de vô, mas de amigo”, afirma, sorrindo para o netinho, atento na conversa. 

A 2ª geração, representada por Paulo, coloca: “o principal ensinamento que a gente leva é a questão do respeito.  Até pela criação que tivemos, algumas coisas nem precisavam ser faladas, às vezes só com uma ‘olhada’entendíamos”.  

Italino com a neta Maria Júlia, Cleudir, Paulo, Genésio, Jean,
Lucas e o bisneto Rafael: quatro gerações reunidas em uma mesma imagem.

 

Importância dos valores 

Assim como afirma o filósofo contemporâneo Mário Sérgio Cortella: “a novidade não é a mudança no mundo, é a velocidade da mudança”, as evoluções, principalmente tecnológicas, foram levantadas como a maior diferença na criação das gerações. Mas Paulo complementa que, apesar disso, os princípios básicos continuam os mesmos: “não roubar, fazer as coisas certas, ter ética, respeito, amor e união”. E aproveitando a reflexão, Italino acrescenta: “e sem brigas”. 

A neta Roberta, mãe de Rafael, da 4ª geração, afirma que ela e o marido procuram valorizar as brincadeiras antigas. “Gostamos que eles brinquem como antigamente. O jogo de futebol, esconde-esconde, jogar cartas com os avós; algo que Lucas sempre faz”. 

Seguindo essa linha, Elizete, mãe de Lucas, afirma que, no passado, tinha mais diálogo com os pais, conversavam muito mais. Inclusive, ela conta que algumas histórias contadas pela mãe Lourdes, enquanto lavava roupas no tanque, eram registradas em caderninhos por ela. Por isso, ela procura conversar bastante, dar atenção, algo que os seus pais sempre fizeram. “Vemos, hoje, que as famílias não têm mais essa noção da importância da conversa, as pessoas estão cada vez mais individualistas e acabam não dando tanta atenção para os filhos. Por isso, acho essa parte bem importante para ser trabalhada com as gerações: o contato, o convívio, o olho no olho, o abraço”, conta. 

Os netos salientam a importância da união, de ver a casa cheia todos os domingos. Jonas, ao ser questionado sobre os ensinamentos recebidos, afirma: “é tanto um ensinamento como uma experiência; é muito bom fazer parte de uma família tão grande e tão unida. Já sou da 3ª geração, primos para todos os lados, familiares em todos os cantos do país. Crescemos valorizando sempre essas festas grandes, reuniões de família. É muito bom ter um grupo grande, com quem tu sabes que pode contar”. 

Jean, filho de Paulo, também recorda que em todos os momentos difíceis sempre tiveram o auxílio dos tios e primos. Por isso, ressalta: “ter lealdade, ajudar os outros e aprender a confiar são os pilares que aprendi com minha família”.

 

Confraternizações habituais em família fortalecem os laços de amor

 

Homenagens emocionantes 

Em clima emocionante de Dia dos Pais, e do jeito que eles gostam, todos reunidos, Paulo aproveitou o momento para homenagear o pai Italino: “gostaria de falar do orgulho que tenho dele. Uma pessoa com quem eu aprendi muito; se pudesse resumir a história dele em uma palavra, seria superação. Ele é um exemplo disso para mim, alguém que eu sempre respeitei e vou respeitar cada vez mais. É uma pessoa que nos mostrou que tudo é possível quando a gente quer e tem fé”, afirmou com os olhos repletos de lágrimas. 

A religiosidade está presente até hoje na família. A filha Neri recorda que uma das coisas que jamais esqueceu foi uma oração: “passamos por momentos muito difíceis na vida, mas o que sempre guardamos foi a oração, a fé que ele sempre transmitiu para nós, o amor e a união. Se alguém está com um problema, nos damos as mãos e encaramos juntos.  E essa oração, que eu e meus irmãos sempre rezamos, é diferente de uma Ave Maria ou um Pai Nosso, mas nós gravamos e guardamos para a gente como um dos maiores ensinamentos”. E em um dos momentos mais especiais da entrevista, toda a família rezou junto a oração, que é uma das marcas do pai.

A 3ª geração também prestou sua homenagem, iniciando por Jean, que homenageou o pai Paulo: “pai, tu sabes que tenho um orgulho enorme de ti, que eu te vi passar por muita coisa. Se tem algo que aprendi contigo foi nunca abaixar a cabeça e nunca desistir das coisas que eu acredito; tudo dá certo se continuarmos juntos e batalharmos unidos”, disse. Jonas homenageou a mãe Neri, pois como seu pai viaja, ela acaba fazendo o papel dos dois, nunca o deixando desamparado.

Esses valores são uma sequência mantida até hoje. Italino, com 80 anos, continua dando força, incentivo aos filhos, e estes acabam passando o mesmo para os filhos que, felizmente, valorizam esses momentos. É como Italino diz: “tendo paciência e calma, tudo se resolve”!

Genésio, também filho de Italino e Lourdes e pai da neta mais jovem, Maria Júlia, salienta: “Às vezes, o pai e a mãe, mesmo não conseguindo nos dar tudo o que queríamos, nos ensinaram em primeiro lugar a valorizar o que tínhamos, e, em segundo lugar, a conseguir as coisas pelos próprios méritos, fazendo o que é certo. Um dos grandes legados que levamos para a vida é seguir o caminho do bem. Somos uma família grande e ninguém se desvirtuou, ninguém seguiu caminhos errados, e essa é uma das coisas mais importantes”, concluiu. 

Conselhos de bisavô

No próximo ano, Italino e Lourdes completam 60 anos de casado, seis décadas de uma história que, mesmo que tenha começado com dificuldades, hoje os orgulha muito. O momento é para eles aproveitarem a linda família que construíram, mas, também, para continuar aconselhando. Para os filhos, o que ensinei, principalmente, foi a fé, amor, trabalho, coisas que era preciso ensinar. E quando saiam, eu recomendava: ‘tem que fazer ‘pulito’, tudo de acordo’, aprendi com meus pais e ensinei para eles”, afirma ele. 

E para os netos e bisnetos os ensinamentos continuam os mesmos, e os principais desejos de Italino para eles são muita saúde, em primeiro lugar, inteligência nas escolhas e estudo, algo que ele não teve oportunidade, precisou aprender na prática, com o passar dos anos. 

Italino e Lourdes, esteio e continuidade para a família que geraram e que se funda em seus exemplos.