A adolescência é uma época da vida em que tudo parece impossível, mas quando uma situação difícil acontece, é preciso coragem para enfrentá-la. Aos 14 anos, entrando no ensino médio, Hellen Anderle precisou encontrar forças para renascer.
Tudo começou em 08 de outubro de 2018. Hellen estava na feira do livro de Veranópolis e sentiu uma bolinha no vão da clavícula. Falou para sua mãe, que ficou super preocupada e já marcou médico. Após vários exames, na ecografia, surgiram alguns linfomas, que foram encaminhados para a biópsia, feita no final do mesmo mês. Depois disso ela esqueceu do fato. Hellen estava no 9º ano. Entre sorrisos, tristezas, encerramento de ciclos e comemorações, foi viajar com sua turma para o Beto Carrero, no final de novembro. Voltou da viagem no domingo, e na segunda tinha médico.
Para ela, tudo estava bem, e, por isso não tinha medo das notícias. Ao sentar com o cirurgião, ele deu a notícia a ela. Explicou que Hellen tinha um tipo de câncer, que teria que fazer quimioterapia e que possivelmente seu cabelo iria cair. “Naquele momento, o mundo parou. Nem eu nem minha mãe esperávamos a notícia. Eu acho que o momento foi bem traumatizante e não consigo lembrar de detalhes do momento porque foi como se meu cérebro “bloqueasse” a informação”, relembra. Encaminhada para a oncologia, foi diagnosticada com linfoma de Hodking, aos 14 anos. Inicialmente, acreditava-se que ele estava apenas no mediastino – região do peito. Com mais exames, soube que o linfoma estava no mediastino, próximo ao diafragma e perto do baço. Essa metástase fez com que o número de quimioterapias também aumentasse.
“Foi um período de um mês que eu realmente não sei como eu sobrevivi. Me formei no ensino fundamental, fiz uma cirurgia dentária, que era um tanto quanto perigosa porque poderia baixar minha imunidade e coloquei o cateter pra fazer a quimioterapia. E em meio a tanta loucura, pintei meu cabelo de rosa, porque era a única coisa que eu vi que fazia sentido pro momento”, conta.

Hellen diz que foi para a primeira sessão preparada para algo terrível, pensou que fosse passar muito mal. A primeira quimioterapia foi realizada em 28 de dezembro de 2018 e finalizou seu tratamento em agosto de 2019.
No fim de tudo, seu cabelo não caiu. O remédio que a jovem precisava – com o principal componente responsável pela queda de cabelo – estava em falta no Brasil inteiro. Durante todo o processo, ela perdeu muito cabelo, mas no último mês, quando fez o uso do medicamento, percebeu realmente a diferença, também influenciado pelo esgotamento do corpo. No final do processo, as sessões foram aumentando de intervalo, porque sua imunidade estava muito baixa.
Saúde pós-tratamento
Os cuidados não pararam com o fim do tratamento. Hoje, Hellen faz exames a cada seis meses. No fim de 2019, teve um problema com o cateter e, alguns meses depois, descobriu uma trombose. Na metade de 2020 precisou passar por mais um procedimento para manter a circulação do sangue.
Todo o processo despertou o interesse na adolescente, o que a fez pesquisar muito sobre a doença. “Até hoje eu sinto muito medo que a doença volte. Linfoma de Hodking é uma doença que não tem causa, diferente de outros cânceres. Não há como saber o que aconteceu, porque não há causa genética, pode ser pelos meus hábitos, pelo ambiente, enfim”, confessa.
Os 15 anos
Em meio às sessões de quimioterapia, Hellen completou 15 anos, em 15 de maio de 2019. Mas a tão sonhada festa não pôde ser realizada. Ao descobrir a doença, muitos planos feitos por ela precisaram ser revistos, inclusive sua comemoração de aniversário. Decidiu, por fim, não realizar nenhum grande festejo, especialmente porque já estaria com a saúde bastante comprometida pelo tratamento, preferia deixar a festa para um momento mais oportuno para comemorar.
Mas, apesar dos pesares, um aniversário não pode passar em branco. Sabendo da situação, seus amigos decidiram organizar uma festa surpresa. “Toda festa surpresa é legal porque demonstra que as pessoas lembram da data, e querem comemorar contigo. A minha foi incrível, porque eu não esperava, eu amo meu aniversário, mas naquele ano, eu preferi deixar de lado. Foi um dos melhores momentos de 2019, recebi muito carinho de todos”, relembra.

Um momento para replanejar a vida
“Foi saindo do médico, quando tomei a decisão de pintar meu cabelo, que comecei a mudar as coisas na minha cabeça. Decidi pintar porque percebi que tem situações na nossa vida que apenas não valem a pena. Pra mim foi um cabelo rosa, mas pode variar pra outras coisas. Sempre tem algo que a gente quer fazer e não faz por alguma razão, e essa coragem fez meu renascer. Nunca acreditei que eu pudesse morrer, mas aproveitei a situação para perceber que o tempo passa e que se tu não fizer aquilo agora, tu nunca mais vai fazer”.
O que sustentou muito Hellen durante todo o processo foi a escola. Foi ocupar a cabeça. Não pensar no que estava passando, apenas ir fazendo o tratamento e focar em outras coisas. “Tenho recordações de fazer as sessões, de ficar muito cansada, enjoada. É uma sensação de esgotamento, de não aguentar mais estar no próprio corpo. Parece que tem alguma coisa que te incomoda o tempo inteiro, mas eu não gostava de pensar nisso”, recorda. Ao mesmo tempo, percebe que essa forma de encarar a situação se deu bastante pela idade. “Eu nunca pensei em tragédia. Meus desejos eram coisas da minha vida “normal”, queria fazer meu tema de matemática, queria estar com meus avós, com meus amigos”, afirma.
Hellen sentia medo. E ainda sente. É uma angústia interminável, pela possibilidade de a doença voltar. Mas alguns aprendizados foram adquiridos ao longo desse tempo. “A doença me fez perceber que muita coisa que a gente vive não vale a pena. Muitas preocupações acabam sendo à toa. Esse medo existe, mas ele não tem poder sobre mim. Já teve, e as vezes eu ainda tenho, mas quando eu caio em mim e penso, percebo que não vale a pena”, reflete.
“Percebo que a gente vive numa rotina automática. A gente vive igual todos os dias. É a realidade, mas tem umas coisas que a gente dá muito valor e não significam nada. Quando a gente tá doente, a gente não vai pensar nas responsabilidades. A gente tem obrigações, claro, mas temos que perceber nosso dia a dia. Dar valor às coisas, por ter noção da finitude. Quando falamos de doença, de morte, a gente tem um pico dessa noção de finitude. Naquele momento, todo mundo pensa em valorizar a vida, e passa uns dias e todo mundo volta a rotina automática.”

Para ela, a principal mudança foi o significado da vida. Ao dizer “eu tive câncer”, as pessoas ficam chocadas, porque parece algo mórbido, mas não é assim que Hellen encara a situação. É nessas circunstâncias que as pessoas têm segundos de lucidez para lembrar que a vida precisa ser vivida, porque os momentos acabam, e a vida também acaba. Ela entende que, no fundo, o que realmente importa são as pequenas coisas que a gente vive. “Acho que a gente tem que aprender com as situações e dar um novo sentido para ver o que tem significado na nossa vida. Nós não lembramos de dias, de datas, lembramos de pessoas, de lugares, de momentos e a gente precisa aprender a valorizar isso. Foi esse o meu renascimento. Passar a ver a vida com outros olhos. A páscoa traz esse sentimento, de família, de estar junto com as pessoas que a gente ama, com as pessoas que a gente considera. Esse é o sentido pra mim”, finaliza.