O Big Brother Brasil estreou na TV Globo na segunda-feira, dia 16 de janeiro, em apenas uma semana de programa os telespectadores estão acompanhando episódios de violência e abuso psicológico protagonizados pelo casal Gabriel e Bruna Griphao. Em um dos diálogos do casal, é possível notar as falas em tom de ameaça do rapaz. Em um diálogo ocorrido no sábado, dia 21, o casal estava conversando e Bruna fala ‘Eu sou o homem da relação’. Gabriel reponde com a seguinte frase: ‘Mas já já você vai tomar umas cotoveladas na boca'”.
Outros participantes da casa já haviam percebido e comentado entre si a relação tóxica do casal. Na noite do domingo, dia 22, o apresentador Tadeu Schmidt, deu um recado para o casal. “Gabriel, em uma relação afetiva, certas coisas não podem ser ditas nem de brincadeira. Esse é o recado que eu queria deixar para vocês”, avisou o apresentador.
Outra situação semelhante ocorreu na edição de 2017 do programa, no entanto, na ocasião, a produção não interferiu de imediato, deixando a situação se tornar insustentável, a ponto do participante ser expulso. Situação como essas deixam claro a dificuldade que as mulheres tem em notarem que estão em relacionamentos abusivos e, principalmente, a dificuldade em sair deles.
A psicóloga Anni Breitembach explica que é possível notar que eu relacionamento é abusivo, quando uma das partes envolvidas no relacionamento exerce poder e influência sobre a outra, diminuindo-a e prejudicando sua saúde mental como um todo. “Como foi explicitado no BBB, por vezes, quem está de fora consegue claramente perceber. Ao contrário do que muitos pensam, relacionamento abusivo não resulta, exclusivamente, de violência física. Pode ocorrer de forma sutil, inicialmente, e se manifestar de forma patrimonial, psicológica, moral e sexual”, explica a psicóloga.
Anni explica que existem diferenças entre relações tóxicas e abusivas. De acordo com ela, relacionamentos tóxicos podem ocorrer em qualquer tipo de relação, não apenas afetivas. Não há uma intencionalidade na prática. Já o relacionamento abusivo apresenta uma intencionalidade, onde um sempre procura obter algo sobre o outro. “Resumindo, o relacionamento tóxico é um adoecer da relação; já o abusivo trata-se de relação de poder, onde quase sempre se extrai algum ganho”, revela.
Cinco anos sofrendo em silêncio
A história que será contada aqui é real, de uma mulher de carne e osso, que carrega muitos traumas e marcas invisíveis de anos de agressões psicológicas e, também, físicas. Sua identidade será preservada e aqui ela será chamada de Julia.
A trajetória de violência psicológica de Julia começa em 2015, quando ela tinha apenas 20 anos e estava enfrentando uma das situações mais difíceis de sua vida. “Eu tinha 20 anos, estava saindo de uma grave depressão, que me fez tentar tirar minha própria vida. Na mesma época, estava me mudando de volta para Veranópolis, tentando fazer novos amigos, conheci ele pelas redes sociais e começamos a nos relacionar”, detalha.
A jovem explica que no início tudo parecia maravilhosos, ele se mostrava uma pessoa atenciosa, incrível, amorosa e temente a Deus, uma vez que os dois eram evangélicos. Com apenas um ano de relacionamento, eles casaram. “Ele dizia que o propósito de Deus era que nos casássemos, mas para isso eu precisava frequentar a igreja dele, e assim eu fiz, depois do casamento ele seguia sendo uma pessoa ‘incrível’, alegando que Deus não queria que eu trabalhasse fora, que era apenas para me concentrar na faculdade”, explica.
Com o passar do tempo, Julia foi se afastando dos amigos e da família, porque, de acordo com o então marido, seus amigos não eram bons o suficiente para ela e não prestavam. “Os poucos amigos eu tinha não prestavam para ele, eram todos taxados de nomes horríveis que não quero citar, e eu, obviamente, acreditava e me afastava dessas pessoas, minha família eu raramente visitava. Comecei a me perceber sozinha, mas seguia achando que ele estava fazendo tudo para o meu bem, que ele me protegia das pessoas ruins e era assim que Deus queria”, detalha.
A situação tornou-se ainda pior quando a avó do rapaz faleceu e o casal mudou-se para a parte de baixo a casa dos pais dele para ajudarem com o avô, que precisava de cuidados. “Mudamos para a casa dos meus sogros depois que a avó dele faleceu, nesse momento ele já estava muito diferente, passou a me tratar mal, me humilhava de todas as formas possíveis”, relata.
As agressões psicológicas sofridas por Julia se estenderam por mais de quatro anos, elas eram intensificadas pela família do marido, que começou a agredi-la e coagi-la também. “Ele me chamava de gorda, de feia, criticava meu cabelo, eu não podia usar maquiagem, não podia usar uma roupa que não fosse escolhida por ele. Aos poucos a família começou a fazer o mesmo comigo, me humilhar, dizer que sem eles eu não era nada nem ninguém, que eu não tinha amigos, que minha família não se importava comigo. Foi nesse momento que comecei a perceber que tinha algo errado, no entanto, via o erro na família, mas não nele”, descreve.
Apenas quando as agressões psicológicas passaram a ser tornar físicas também, foi que Julia percebeu que seu relacionamento não era saudável. “Foi um colega de faculdade que me alertou sobre a situação do meu relacionamento, as agressões físicas tinham se tornado constantes, eu sempre tentava esconder as marcas. Um dia meu amigo viu os machucados, eu tentei mentir, mas ele não acreditou e me ofereceu ajuda, foi nesse dia que minha ficha caiu”.
Após tomar consciência que estava em um relacionamento abusivo, Julia decidiu que queria sair daquela situação, no entanto, era completamente dependente dele, pois não tinha emprego, amigos e nem contato com a família. Tendo tomado a decisão de colocar um ponto final na relação, ela passou a buscar histórias de pessoas que saíram de relações abusivas e procurar ajuda na faculdade, que era o único lugar que ainda frequentava longe do marido.
Julia revela que ele notou que ela havia mudado e intensificou a vigilância sobre ela. “Ele percebeu que algo tinha mudado, colocou câmeras em toda a casa, inclusive dentro, onde toda a família tinha acesso exceto eu. Além disso, ele me traia e fazia questão que eu descobrisse. Cada agressão, física ou psicológica era seguida de um pedido de desculpa com direito a dias de paz, presentes, etc…”, explica.
Depois de ser agredida com cabos de televisão, a jovem saiu de casa de pijama e apenas com o celular na mão, pedindo ajuda para uma antiga amizade que a acolheu naquela noite. “Eu não tinha para onde ir, não tinha nada, ele me chamou para conversar e acabei voltando para a casa dele com a condição de sair assim que arrumasse um emprego”, revela.
Ela não conseguiu o tão sonhado e libertador emprego, mas não aguentava mais ficar na mesma casa que seu agressor. “Eu não tinha para onde ir, mas não aguentava mais ficar ali, foi quando meu atual marido me ajudou com lugar pra ficar, despesas e etc… O término foi terrível, eu basicamente precisei fugir de casa, só consegui pegar roupas, meu cachorro e outros pertences 15 dias depois com a ajuda da Brigada Militar”, descreve.
Casa nova, vida nova, certo? Errado! Mesmo após sair de casa e tentar recomeçar a vida, a jovem enfrenta problemas causados pelo relacionamento, pois sofre com traumas psicológicos até hoje. “Eu saí, mas carrego comigo marcas que não sei se um dia vão ser reparadas, eu tenho traumas terríveis, não consigo ouvir alguém falar alto, que desencadeia crise de ansiedade, se alguém levanta a mão perto de mim, independente do motivo, sou tomada por muito medo, não consigo mais manter amizades com as pessoas e isso é terrivelmente triste… Eu só gostaria de deixar um recado a todas as mulheres, fiquem atentas, os sinais são sempre iguais, as histórias se repetem, no primeiro sinal, saiam, ninguém que realmente te ama vai querer te tornar dependente dele”, finaliza.
O que é violência psicológica?
Quando se pensa em violência, geralmente, associasse a atos violentos e agressões físicas. Em um primeiro momento, dificilmente, a violência psicológica é pensada como um tipo de violência. Em muitos casos ela é justificada como “ações mal pensadas”, ou que faz parte da personalidade “forte” do agressor. No entanto, esta forma de violência, é tão tóxica e prejudicial quanto a violência física. Ela causa feridas emocionais profundas nas vítimas, as quais levam muitos anos para cicatrizar. É importante destacar, ainda, que as agressões psicológicas podem ocorrer em qualquer tipo de relacionamento. Entretanto, é mais comum que elas sejam percebidas em relações afetivas.
A psicóloga destaca que a violência psicológica acontece de múltiplas formas. Enquanto algumas agressões podem passar despercebidas outras são mais evidentes, como xingamentos, humilhação e chantagem emocional. Este tipo de violência possui a intenção de fragilizar o estado emocional e psicológico da vítima. O agressor psicológico recorre a várias artimanhas para deteriorar a saúde mental da vítima. Em relacionamentos afetivos, é mais comum esses artifícios serem usados friamente para deixar o cônjuge apegado ao agressor.
As ações violentas são disfarçadas de ciúme, excesso de cuidado, ou camufladas pelo “temperamento forte”, e utilizadas como justificativa de desentendimentos, entre outras situações. Outra característica deste tipo de violência é o seu crescimento gradual, começam com a repreensão de uma risada em público ou de pequenos detalhes e chegam a ameaças e chantagens. As agressões psicológicas vão, pouco a pouco, fragilizando a autoestima da vítima, fazendo com que ela confunda sua percepção dos acontecimentos e da personalidade do agressor. À medida que a vítima abaixa a guarda e passa a escutar o agressor, elas se transformam em agressões sérias. Dessa maneira, a vítima é incitada a se colocar em uma posição de submissão.
Formas de agressões psicológicas
As agressões psicológicas acontecem de variadas formas, podendo ser mais violentas ou mais sutis. Como a diversidade de ações violentas é grande, a vítima pode ficar confusa ao tentar identificar o que é problemático e o que é da personalidade do agressor.
Quando o agressor é o cônjuge, obter essa percepção é ainda mais complexo já que a vítima possui sentimentos bons por ele. Ela tem dificuldade para separar o que sente pelo agressor no momento do julgamento das agressões. Assim, leva mais tempo para chegar à uma conclusão concreta sobre o comportamento do parceiro.
Anni explica que os tipos de violência psicológica giram em torno de ameaças, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento (proibir de estudar e viajar ou de falar com amigos e parentes), vigilância constante, perseguição, insultos, entre outras situações. Ela destaca que as causas dessas agressões, giram em torno do alcoolismo, ignorância e desconhecimento, educação deficiente, falta de inteligência emocional, insegurança, dificuldade de controlar seus impulsos, de ter empatia e de compreender os outros, drogadição, entre outras coisas.
Consequências da violência psicológica
Conforme as agressões psicológicas se repetem, a vítima ao mesmo tempo fica com medo do agressor e com autoestima baixa. A autodepreciação impede que ela termine a relação abusiva. A vítima de violência psicológica começa a duvidar da sua própria capacidade de julgamento das situações e do seu merecimento da felicidade. O agressor psicológico comumente consegue fazer a cabeça dela, criando um laço de dependência difícil de ser quebrado.
Consequentemente, a vítima se anula, se diminui e se isola de pessoas queridas. Outras esferas da vida da vítima também são afetadas. Ela deixa de trabalhar com afinco, de contatar amigos, de sair de casa (quando divide a moradia com o agressor, é comum que isso aconteça), de cuidar da saúde e da aparência, de fazer planos, entre outras.
A longo prazo, essa forma de violência também causa diversos transtornos mentais severos, como ansiedade, síndrome do pânico, estresse pós-traumático e depressão. Como o estado emocional da vítima é fragilizado a ponto de ela duvidar de seu próprio valor como pessoa, é muito difícil para ela deixar um relacionamento abusivo ou cortar relações com o agressor psicológico.
Quem está de fora pode não entender a sua decisão de ficar ao lado do perpetuador das agressões. É assim que surgem concepções errôneas acerca de relacionamentos doentios, tais como “ele/ela gosta de sofrer”. Na verdade, a vítima precisa de ajuda psicológica e apoio para se reerguer e conseguir deixar a situação desagradável.
Anni explica que o primeiro passo para sair de uma relação abusiva é tomar consciência de que está nela. “Primeiro a pessoa precisa tomar consciência, posteriormente, ela precisa entender seus direitos e buscar uma rede de apoio que possa contar, juridicamente, socialmente e psicologicamente e aos poucos retomar essa confiança que foi destruída pela relação”, revela.
Além disso, é possível e necessário denunciar esse tipo de violência. “Desde agosto de 2021, a violência psicológica contra a mulher é considerada crime. Diferente da violência física, que deixa marcas visíveis no corpo, o abuso psicológico não é evidente. Um laudo técnico assinado por médico ou especialista será necessário. Testemunhas, áudios, prints de mensagens também são válidos. O primeiro passo é registrar o boletim de ocorrência. Solicitar medida protetiva, além de tentar reunir essas evidências”, finaliza.